Elis toma outra chuva. De lágrimas.

Ela senta em um banco, na praça próxima do cybercafé no qual Débora está tentando arranjar uns minutos [ De graça, claro. Ela nem lembra da última vez que Debby teve de pagar por qualquer coisa não durável. Não há nada que um balanço daqueles longos cabelos ruivos não resolva. Pelo menos financeiramente falando.] para ver o listão.  Apesar da insistência dela, Elis preferiu ficar de fora daquela agonia visível no cybercafé. Ela sabia que não ia passar e para quê – Não é mesmo? – alimentar falsa esperanças?

Baixou a cabeça e olhou para as mãos. As mãos que tinham quase criado calos de tanto fazer exercícios de assuntos que ela nunca gostou e nunca vai gostar. Que droga. Pra quê queria saber das leis de Newton, ou dos haletos orgânicos? Tudo que ela queria era fazer o curso de Arte, em paz. Será que simplesmente não poderia ser uma artista respeitada sem ter que passar por tudo isso? Ainda mais algo que ela sabia que não ia servir de nada. Todo o esforço em vão. Talvez fosse bom chorar. Mas ela era fechada demais para cair nos prantos. Talvez se chovesse. De novo. Parece que toda chuva não tinha caído ainda, apesar de todo o dilúvio do começo da manhã. O dia permanecia num cinza feio e triste, que casava muito bem com os pensamentos de Elis.

Levantou o rosto. Na esquina vinha um carinha de físico definitivamente perfeito. Dava para ver, mesmo de longe, sua barriga bem definida delineando-se por baixo de uma camiseta molhada. Os olhos dela fixaram-se incomodamente sobre um veia do braço da – provavelmente – encarnação de um deus pagão da beleza. Parecia que ele, mesmo com sua divindade, pega uns pesinhos ou as veias não seriam tão grossas. Ela levanta o olhar. Olha nos olhos do cara, num súbito esquecimento apreciativo. Elis sente um calor incômodo no pescoço. O deus grego sorria para ela.

– Droga, droga, droga – pensa Elis, sorrindo de volta e acenando. O tempo todo era o Heitor. Como eu não percebi antes? O Heitor. As veias grossas e as enormes caixas de farinha que ele carregava pra mãe dele. Claro, tudo faz sentido. E isso não torna a situação menos constrangedora para Elis. Que tipo de melhor amiga ficando secando seus amigos por aí? E nem percebe que é ele?
– Meu Deus – diz ela, consigo mesma, enquanto segura o sorriso no rosto ela – Eu devo estar mesmo louca. Ele vai se aproximando e Elis, na proporção direta, sente seu estômago afundar de vergonha. Mesmo que ele não saiba, ela sabe e isso já é o suficiente. Ele pára de frente a ela e eles se encaram durante o que pareceu um século.

– Elis – disse ele, abrindo um sorriso que iluminaria o mais negro dos dias. Esse, por exemplo. Em seguida a abraça forte. Ela retribui o abraço, meio chocada. A camisa estava totalmente ensopada, mas ele ainda assim estava quente. Elis nota um cheiro nele. Um cheiro de mato molhado. Extremamente exótico e ainda assim muito reconfortante. Se pergunta como nunca havia notado-o antes. Na verdade, PORQUÊ está notando agora?
– Devo estar ficando maluca – supõe, balançando a cabeça como se o movimento pudesse espantar os estranhos pensamentos que abriram espaço na sua cabeça.

– Tudo bem? – pergunta ele, vincando a testa de preocupação. Elis parecia a imagem da tristeza em misto com a agonia.
– Na medida do possível – responde Elis, lacônica. Acabou de se lembrar que hoje é o, possivelmente, pior dia da sua vida. Ela levanta do banco para encarar Heitor. Ele está realmente muito alto. Os olhos de Elis não passam do ombro dele, agora. Um salto 15, por favor.
– Você não parece bem. – atesta Heitor. Ele parece realmente curioso.
– Deveria? – pergunta Elis, revirando os olhos. Bem, homens são homens, no fim das contas. Não importa se ele é seu amigo, no fim ainda será um homem com toda a mente terrena que lhe é característica.

Uma mecha cai no rosto de Elis. Ela a puxa para trás da orelha, irritada. Que droga, por quê que isso vive acontecendo? Mas também, pudera! Ela nem lembra da última vez que foi para o cabelereiro! Nem para aparar a franja! Agora não adianta reclamar.
– Tenho algo para você – diz Heitor, com um estranho brilho nos olhos. Ele vasculha os bolsos e tira um papel impressionantemente seco da sua bermuda de tactel.
– O que é isso? – pergunta ela, a curiosidade nascendo.
– Você tem uma chance – desafia ele. E começa a balançar o papel dobrado no ar, bem fora do alcance de Elis. É duro ser baixinha.
– Ah, qual é! – reclama Elis, pulando para pegar o papel – Eu sou péssima com adivinhações!
Heitor responde esfregando o papel no rosto dela antes que ela pudesse se dar conta.
-Aaaaaai – grita ela, surpresa. E começa a sorrir. É interessante o quanto Heitor sempre a fazia sorrir. Mesmo quando tudo o que ela queria era morrer.
– Uma chance! – cantarolou ele, balançando o papel.
– Por favor! – implorou Elis. Ela continuou pulando enquanto falava.
Heitor riu um pouco e baixou o braço. Ele adorava ver a Elis assim. Ela merecia sorrir, de vez em quando. Gostava de fazer bem a ela. Era quase uma atitude automática. Algo meio irmão mais velho, ele pensava. Sei, é claro. Incesto?
– Tudo bem, você já fez exercício suficiente – zombou Heitor, baixando o papel.
Elis tomou o papel instantaneamente e foi abrindo-o sem nem respirar. Ela não sabia por que estava tão ansiosa com aquele simples pedaço de papel. Pensando mais friamente, é até meio idiota ficar correndo atrás de um papelzinho quando você nem ao menos sabe o que tem escrito nele. Mesmo assim ela sentia um poder, uma força. Algo que emanava daquele pedaço de celulose extremamente modificado. E a atraía profundamente.
Ela estava na última dobra e, sem que ela soubesse porquê, seu coração batia tresloucadamente, como se fosse sair do peito. Havia algo, sim, havia. Heitor parecia compartilhar a sensação. Seus olhos não saíam do papel. A não ser para observar as expressões do rosto de Elis.

E de repente ouvem um grito vindo do cybercafé. Na porta, Débora. Os olhos vermelhos, as lágrimas caindo ao jorros. Na boca, um imenso sorriso. Ela urrou. E o urro tinha um som estranho. Não dava para entender. Elis franziu a testa. Heitor também.
– O que foi, Débora? – perguntou Elis, meio chocada com a cena toda.
E Débora se dirigiu à Elis, as lágrimas caindo convulsivamente. Era uma cena chocante. Chocantemente linda. O vento balançava os cabelos vermelhos de Debby e ela sorria. Parecia o encontro do fogo com a água. Ela parou na frente de Elis. Elis olhou para ela, boquiaberta. Lançou à Débora um olhar interrogativo. Debby se demorou olhando para Elis e chorando. As lágrimas pareciam não ter fim, como que vindas de uma cachoeira de fonte perene. Por fim, sorriu.

– Nós passamos – respondeu Debby, as lágrimas continuando a cair.

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16 thoughts on “Elis toma outra chuva. De lágrimas.

  1. Ta, o que é que tava escrito no papel? Você me deixou curiosa sabia?
    haushuashuahs
    Mas agora falando sério… Esse post lembra você… sabe, eu sei que você ta labutando pra caramba pra passar no vestibular. E isso é f*da. Sei que é, porque eu to muito insegura, e com muito medo de não passar, também. Mas acho que vale sempre o esforço né? E acredite em você. Você vai passar 😉 (e espero que eu também)
    Beeeijos

  2. O que que tinha no papel?!?
    *curious mode on*
    Lindo.
    Dá pra sentir a angustia dela no começo com esse negocio de ter passado ou não.
    Tenho um nervoso com esse negocio de provas, acho que ano que vem eu vou ter problemas com nervosismo por causa do vestibular

    Espero que você continue esse conto logo porque eu necessito saber o que tinha no papel (to começando a desconfiar que não tinha absolutamente nada) e se ela e o Heitor ficam juntos

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