O passarinho amarelo da situação.

E assim como são os homens são as criaturas.

Meu pai cria dois passarinhos aqui em casa, um todo preto e outro colorido, todo amarelo, laranja e preto. Para não entrar no campo da discussão ambiental, adianto logo que os passarinhos que meu pai cria não são aves silvestres ou algo do gênero. Posso afirmar que são passarinhos comuns que se qualquer loja de animais vende. Claro que odeio esse negócio de vê-los presos e patatipatatá. Mas a verdade é que não foi o meu pai que os prendeu, o que significa que eles já estão há muito tempo presos naquelas gaiolas. Assim sendo, soltá-los agora não faria nenhum bem aos coitados. Muito pelo contrário, isso rapidamente os tornaria nuggets de uma frajola qualquer. Mas, como já afirmei, não é sobre isso que quero falar.

Na nossa casa temos um sistema particular ( bem, agora não mais ), que basicamente consiste em: meu pai traz o passarinho, nós reclamamos, o passarinho canta, nós nos afeiçoamos e deixamos para lá, deixando bem claro, obviamente, que esse é o último passarinho que ele traz para casa. Antes só tinhámos o passarinho preto, que apelidei carinhosamente de negão – apelido que foi seguido por todos. Eis que um belo dia chego em casa e lá está um passarinho novo. Pai, eu não acredito! Mais um!? Esse passarinho, como a maioria dos passarinhos recém mudados, passou um bom tempo sem soltar um pio – literalmente falando. Eu, admito, sou meio chata para afrescalhados, sejam eles gente ou animais voadores. Então, essa aberta chatice do passarinho amarelo – desculpada pelo meu pai como troca de penas – apenas me fez ser mais solidária com o negão, que tinha agora concorrência na piarada. É isso aí, o negão não tem frescura. Além do quê, vocês sabem, eu tenho uma queda natural a ficar do lado das morenas. E o negão é preto, o outro tem a maior parte das penas amarelas. Era pedir demais para mim. Em resumo: eu não gostava do amarelo e adorava o preto.  Enquanto o negão ( ele nunca me processou por chamá-lo assim ) se jogava na cantoria desenfreada, aquele amarelo amarelava ( ha! ) miseravelmente e me fazia parecer uma  galinha caipira, cheia de penas amarelas – afinal de contas ele estava mesmo trocando as penas.

Os dias passaram, tornaram-se semanas e as penas começaram a rarear no piso de cerâmica branca, o que é um grande feito que não foi conseguido por nenhuma de nós, com nossa recém adquirida neurose por penas e, sim, pelo passarinho amarelo, que agora estava meio alaranjado. E foi nesses dias que ele começou a cantar também. Um canto diferente do que estávamos acostumados. E, muitas vezes, o passarinho amarelo imitava o negro, o que muitas vezes me irritava, pois isso fazia o passarinho negro emudecer, tadinho. E como eu já disse antes, ele era o meu predileto. Era.

Com o tempo o pássaro alaranjado – née amarelo – começou a ganhar nossos corações. Com toda a sua pululância, a sua mania de tentar bicar nossos dedos quando tentamos colocar sua comida na gaiola e suas macaquices – passarinho estranho – quando meu pai aparecia ( seu dono predileto ), ele terminou por conquistar nosso coração. Em pouco tempo, visivelmente, eu estava chamando de amarelo safado, de novo carinhosamente, e brincando com ele, enquanto ele tentava desesperadamente morder meu dedo indicador.

Toda essa história para fazer uma comparação com nós, seres humanos, dotados de cérebros super desenvolvidos, no entanto muitas vezes levados por nossas instintos mais remotos e bestiais. Quanto de nós não nos sentimos o passarinho amarelo da situação, estranhos num lugar estranho cercado de pessoas igualmente desconhecidas? Sabemos que tal sensação não é nem de longe agradável e pularíamos ela das nossas vidas, com toda certeza, se pudéssemos. O nosso desejo interior é que já conhecêssemos todos que precisamos, sem ter que passar pela árdua tarefa de socialização, uma das coisas mais constrangedoras se você realmente não conhece ninguém no recinto em que se encontra. Poucos são os que agem como o amarelo safado, apesar da nossa supracitada capacidade intelectual superior, surgindo brilhante ( e douradamente ) das cinzas às quais ele mesmo se exilou. Muitas pessoas passam toda a vida nessas cinzas. E nós não fazemos nada para ajudá-las, apenas achando que elas são cheias de frescuras e nos ligando ainda mais ao negão da situação, pessoa muito confiante de si e que não está, visivelmente, preparada para dividir os holofotes com mais ninguém.

Eu realmente queria mesmo ser mais como um o passarinho amarelo ( ah, seu safado!), mas creio que eu ainda esteja um tanto morena na minha visão. A versão loira é glamourosa demais para mim. Quem sabe quando o passarinho se tornar mais laranja. Eu sempre quis ser ruiva.

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5 thoughts on “O passarinho amarelo da situação.

  1. Ai amiga, tou achando esse blog tão bonito!

    Dia desses eu vi um passarinho verde na praça, sério, literalmente um passarinho verde! Não teve efeito nenhum, humpfh.

    Juntemos todos em ua grande gaiola e dê uma festa!

  2. Que lindo esse final! ADOREI!
    Aliás, o texto todo… aqui em casa é cheio de passarinhos, meu pai é apaixonado e conversa com todos de manhã cedo qdo coloca água e comida pra eles. É uma cena linda de se ver, sem ironias.
    E esse blog novo tá te deixando super inspirada, hein amigue?!
    Beijo

  3. Ai Amandoca, que saudade que eu estava dos seus textos! Perfeito esse post, a analogia dos passarinhos ficou genial! Amei, amei, amei 😀
    Pelo amor de Deus, não suma mais! haha
    beijones

  4. Mandy, esse texto ficou MUITO bom, adorei mesmo! A ligação com os passarinhos foi genial e até consigo te imaginar refletindo sobre o assunto enquanto olha para a gaiola deles…
    Enfim, não posso deixar de comentar que quando eu era criança tive vários periquitos australianos (?). O macho era sempre azul e se chamava Lelé. A fêmea, amarela e se chamava Lalá. Quando um morria, sempre comprávamos outro. Parece bizarro agora. Muito bizarro, até pra mim! uheuhehueuhuhee
    beijo

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