Sobre a minha melhor amiga no mundo inteiro.

É diferente quando é diferente de você. E ao mesmo tempo parecida.

Eu e minha irmã sempre nos demos pessimamente mal. Ou pelo menos era assim, quando eu tinha uns seis anos – e ela tinha uns dois. Eu a achava insuportável, com seus olhos verdes brilhantes – ou cor de mel, dependendo do humor. Mas como ela era maligna a maior parte do tempo, eles realmente ficavam realmente verdes a maior parte do tempo. Um verde aceso, queimando, queimado. Estavam lá quando nós estávamos brigando por um brinquedo ou quando ela olhava inocentemente – cinicamente, na minha opinião – para mim, depois de vencer uma briga qualquer com ajuda de minha mãe – o que significava que eu levava uma surra/sova/chinelada/castigo e ela ficava com o brinquedo. Fácil. Simples. Eu a detestava. Minha mãe sempre obrigava-me a levá-la aonde quer que eu fosse. Comigo. Era como levar um espião do exército alheio para tomar chá da tarde no seu covil. Ela sempre me entregava, qualquer que fosse a coisa que eu fizesse. A mais boba, eu podia contar com, pelo menos, um puxão de orelha, por culpa dela. Eu realmente a detestava e me perguntava – algumas vezes, perguntava às pessoas a minha volta também, na minha falta de noção infantil, por que que ela tinha nascido, me tirando da minha vida boa de filha única. Porque? Claro que as pessoas se chocavam. Mas davam um desconto. Por eu ser criança. E ainda não ter desenvolvido aquele descofiômetro básico. Que nos diz que perguntas – ou respostas – devem ficar para nós mesmos e quais podemos compartilhar.

Então eu cresci. Ela cresceu. Eu passei pela pior parte da minha vida. Adolescência. A pré. 13 anos. Rock, lápis de olho, ninguém me compreende. Essas coisas. E ela ainda estava no fim da infância. Eu ainda não gostava dela. Ela tinha um ar de superioridade que não deveria existir em crianças pequenas. Pelo menos não quando outra criança maior – ou adolescente, como eu adorava me nomear – estivesse presente. Bem, ela realmente nunca ligou pra isso. Continuava me entregando, porém um pouco menos. E não de graça, pelo menos. Não era confiável. Mas também não era aquele ser abominável que era aos três ou quatro anos de idade. Seus olhos ficavam cada vez mais cor de mel, embora ela fosse tudo, menos doce. Pelo menos pra mim. A sua voz, que era rouquíssima quando criança, começou a se tornar parecida com a minha – o que não é nenhum elogio, acreditem em mim. Brigávamos muito entre nós, ainda. Claro. Mas os nossos brinquedos não eram muito parecidos agora. Não tínhamos muitos em comum. Eu gostava de ler. Ela não. Eu gostava de pop rock. Ela não. Ela não sabia bem do que gostava. Nos juntávamos para brigar com a mulher do meu tio, que é completamente louca e parecia ter como esporte predileto tentar enlouquecer as nossas mentes sãs. Creio que eram. Sãs, digo. Eu a defendia quando ela se metia em brigas no colégio. Claro. Ia lá resolver tudo. Como a irmã mais velha, mais ajuizada. Claro. Ela, nos seus surtos de olhos verdes, jogava uma cadeira na colega de classe – graças a Deus era de plástico – ou se atracava com a bendita e haviam puxões de cabelo, choro e ranger de dentes. E logo aparecia uma das nanicas amigas dela, me chamando na minha sala. Pedia licença ao professor e saia. Ela até já estava acostumado. Uma vez me deu um lenço para enxugar as lágrimas dela. E eu me sentia muito bem no papel de irmã leal. Na semana seguinte, ela estava de mãos dadas com o alvo dos puxavancos. Eu nem ligava. Mesmo sabendo disso no momento que ia lá, defendê-la, eu continuava indo. Mesmo partilhando a informação de que, em poucos dias, ela começaria a conversar e andar de maos dadas com a arquiinimiga, como se aquele rolar no chão não tivesse sido nada demais. Por que ela sempre foi assim. A rancorosa sempre fui eu. Ela esquece fácil. E pede desculpas. Eu odeio fazer isso. Pedir desculpas. Talvez ela já soubesse disso, por que depois que  na nossa relação nunca houve desculpas. Acho que houve, apenas uma vez. Da parte dela. Não lembro por que. Só lembro que minha irritação com ela passou, assim que percebi que, sim, minha amizade era importante para aquela pequena hitlerzinha.

Creio que aprendi com ela a ser leal ao que eu penso. Comigo, creio que ela aprendeu a ser leal a quem ama. Ela sempre foi atrás do que queria. Uma mestra nas artes da chatagem emocional. Claro que não funciona comigo, já que vi o processo dos bastidores. Mas com os outros pobres mortais – minha mãe, meu pai, a vítima mais atingida – não conseguem resistir aqueles olhos dourados chorando. Mesmo que o que os lábios próximos deles não digam nada que se aproveite. Ela consegue as coisas no choro. Eu, no grito. Ocasionalmente, aprendemos os truques umas das outras. Agora, pobre do meu pai, é angustiado por duas. Ocasionalmente, três. Minha mãe também é uma Jedi nessa área.

Hoje em dias, seus olhos são mais dourados. Não doces. Doçura não combina com ela. Ela é uma mistura de acidez com felicidade. Um chuva rápida num fim de tarde alaranjado. Ela não me entrega mais. Continua calculista. Mas não fria. É uma amiga que eu JAMAIS pensei que fosse ter. Quem diria. A minha melhor amiga, no mundo inteiro, é a minha irmã. Aquele serzinho abominável e irritante. Que eu amo tanto.

Feliz anivérsario, @caroline_arruda. Você sabe que eu só te desejo tudo o que tiver de bom no mundo.

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13 thoughts on “Sobre a minha melhor amiga no mundo inteiro.

  1. Eu não tive irmã, só irmão, dois pestes na realidade. Eu sou a mais nova e acho que já devo ter feito algumas dessas coisas de pirraia que sua irmã fez com você 😀 Mas eu era pequena, não sabia bem o que tava fazendo *-* E além do mais eu sofria muito nas mãos deles, acredite, já apanhei muito.. agora eles já tão bastante grandinhos pra esse tipo de coisa, mas ainda não deixaram de ser pestes, vez ou outra me irritam, mas acho que é a função dos irmãos.. asduhasudhauhda A gente briga, se xinga, mas no fundo sempre se ama! xD

    Muito bom o post, isso sim que é um presente de aniversário! ^^
    Beijos :*

  2. Ahh, que legal! Dores e delícias de ter um irmão… sou filha única, então foram 18 anos sem alguém pra me defender na escola, fazer meu dever de casa ou alguém pra jogar a culpa!
    Adorei esse texto 😀
    ;***

  3. Ai que lindo seu texto!
    queria viver mais com meus irmãos (meus pais são separados e meu pai teve filhos com outra mulher), mas mesmo eles morando em outra casa nossa relação é boa!
    parabéns pra sua irmã!
    ;*

  4. Irmão é tudo a mesma coisa, meu irmão também é totalmente diferente de mim, mas a gente termina tendo bons momentos (raros, mas bons). E acho bom sua irmã ter LIDO e GOSTADO do texto! haha 😀
    Parabéns pra ela e pra você pelo texto! Bjs.

  5. Sabe… olhando para a sua vivência eu acho que eu e a minha irmã temos salvação… mas como a nossa diferença de idade é maior, não creio que vou estar perto quando ela ficar suportável.
    Amei seu texto, ele é perfeito! Uma imensa homenagem! rs

    Beeijos!

  6. Que menina calma, doce e fofa a tua irmã. Praticamente uma mini diva! rs. Zoando :•)

    Obrigada pelo texto e pela sua amizade! Tu sabe que eu estou aqui para o que der e vier.

    Amo você! (L) bjsbjs.

  7. Primeiro deixa eu contar como ficou lindo o teu theme novo, eu não tinha visto ainda D: Enfim, é lindo ter uma relação assim com os teus irmãos. Eu ainda não cheguei nesse ponto HAHAHA Mas quem sabe quando eu fizer 18 a gente se dê bem.
    Beijos.

  8. Que texto LINDO. Eu fiquei arrepiada lendo, de tão bonito, tão diferente da maioria dos textos-declaração-de-amor. Tão sincero e doce, com uma certa provocação, tão a ver com a relação entre irmãs!
    Você arrasou, Mandy!
    E parabéns para sua irmã.
    beijos

  9. Que texto LINDO, amigue. Bem honesto, sem rodeios, por isso mesmo lindo.
    Também sempre tive, e ainda tenho, rixas com minha irmã, mas ela é com certeza uma das pessoas mais importantes e influentes em minha vida.
    Beijo ;*

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