Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte I.

Como eu a conheci ainda é um mistério para mim mesma. Acho que estávamos ambas sentadas num mesmo parquinho de uma praça qualquer. É, foi isso mesmo. Uma garotinha linda, na faixa dos dois anos, cabelos loiros cacheados e olhos verdes, brincava com os pombos, jogando a pipoca que a sua aparentemente irmã tinha comprado para o consumo dela, a menininha. Bem, se isso a fazia sentir-se melhor, os pombos realmente pareciam interessados na pipoca – pelo menos bem mais do que a menina –  e quanto mais pombos apareciam, mais a menininha ficava feliz. Eu estava bastante compenetrada na minha leitura antes de tal criaturinha chegar, mas aquela risada totalmente contagiante e aqueles fios de ouros iluminando o parque com sua corrida feliz simplesmente me desconcentraram. Passei um bom tempo embasbacada com a quantidade enorme de vida inclusa naquele pequeno ser. Como aprendíamos depois a ser tão… apagados? Na verdade, nem lembro se eu era algo tão irradiante. Algo tão ligado em 220. Comecei a sorrir sozinha e olhei pra mulher sentada do meu lado, que parecia estar naquele tipo de estupor no qual eu estava entrando desde que chegou no parque. Ela parecia uma versão pouco mais velha da menina. Os mesmos fios loiros, apenas agora um pouco mais escuros, e os mesmos olhos verdes. E sardas pelo nariz e pela bochecha. Será que a menininha também tinha sardas? Já que não ia mais conseguir me concentrar no meu livro, já que uma louca personagem pulara de algum conto de fadas infantil e resolveu ficar pululando com os pombos a minha volta, resolvi travar uma conversação com a tal moça do meu lado.

– Ela é sua irmã? – perguntei para a moça loira. Ela sorriu para mim, embora continuasse com os olhos na  sapequinha irrecuperável, e corrigiu: – É minha filha. Deu um suspiro: – As pilhas delas nunca acabam, é impressionante! Ela tem um enorme prazer de viver! E continuou observando a filha, embevecida. Primeiro achei que ela estava admirando-a, por sua energia pulsante. Mas hoje vejo que ela apenas relembrava um tempo nem um pouco longe, no qual essa pirralhinha afoita era ela mesma. Claro que eu nunca ia imaginar isso. Ela era simplesmente jovem demais até para eu realmente imaginar que aquele serzinho elétrico era carne das suas  entranhas, que dirá pensar que ela já era velha suficiente para pensar no passado. Mas, aparentemente, era assim que se sentia. E foi o que disse depois, sem mais nem menos mais: – O amor nos envelhece, sabe? Creio que de um jeito bom, mas nos envelhece sim. Olhei para ela e perguntei se não era mais uma sabedoria adquirida, e não uma velhice em si. – Bem, ela disse, eu nunca ouvi falar em nenhum sábio novo, certo? Esse negócio de sabedoria cansa, acaba com as baterias. Não tenho mais coragem de ser assim, falou, indicando sua filha. Nessa hora percebi uma tatuagem delicada em seu pescoço, começando na parte inferior da nuca e subindo para o pescoço. Escrita em caligrafia finíssima, a tatuagem declarava: Prazer & Amor. Tentei ficar calada e não comentar, mas algo me dizia que, sim, eu não perderia nada perguntando. Nunca se perde nada perguntando. Sempre se ganha. Sejam coisas boas ou coisas ruins. É como apostar. Abrir um presente. Nunca se sabe mesmo o resultado. E decidi que perguntaria. – Ahm. Sua filosofia de vida, essa?, falei, evitando olhar nos olhos. Ela piscou os olhos como se acordasse e virou-se pra mim, sem entender: – Desculpe. O que você quis dizer com isso? Meio envergonhada e com medo que ela tivesse ficado chateada com a minha intromissão, fui tirando delicadamente o meu time de campo: – Oh, nada. Só estava perguntando sobre a tatuagem, mas não precisa responder. Grosseria a minha, também, me meter. Eu nem ao menos a conheço. Ela sorriu pra mim e vi que estava perdoada. Ela virou pra frente e continuou a observar sua filha. Ouve um grande silêncio entre nós. Não mentirei que não foi incômodo, por que foi. E eu já estava prestes a voltar pro meu livro, com concentração ou sem concentração, quando ela finalmente falou: – Anna. Foi minha vez de não entender nada: – Desculpe? – Meu nome. É Anna. – disse ela, sorrindo – Sei que não é suficiente para você dizer que me conhece mas… – É um começo, completei, feliz por ela não ter ficado chateada comigo. Um silêncio menor se seguiu, mas dessa vez não me incomodei, pois sabia o que viria a seguir. – É uma história complexa, essa. Mas não é bem minha filosofia de vida não. Não é só isso. É mais a história da minha vida. Não sei se você terá vontade ou paciência para algo assim, sabe? – ela falou, se virando para me olhar no final da afirmação, talvez para confirmar o que ela sentia. Não conseguiu. Eu continuava tão curiosa quanto antes e capacidade de ouvir histórias estranhas e complicadas é uma habilidade que eu sempre tive. Pra mim, quanto mais complicada a história, mais interessante. Historiazinhas comuns não me servem nem nunca me serviram, embora eu tenha achado difícil encontrar alguma que seja, ao seu todo, comum. Sei que dizem que dizer que todos são diferentes é apenas uma forma de dizer que todos são iguais. Mas, sinto muito em ser clichê, mas não vejo outra forma de dizer o que acredito: todos nós temos nossa partícula de inusitado – ou nosso Alpes particular. Não dá pra dizer que nenhuma história é totalmente simples. Sem graça. Ou mesmo aguada e óbvia. Por que todos temos nossos dramas particulares, que podem até ser parecidos com o da pessoa do lado,  mas nunca iguais. Temos sentimentos, razões, pensamentos que tornam tudo interessante e diferente.

Mas se há de admitir: do meu ponto de vista, sim, existem sentimentos, razões, pensamentos que são MAIS interessantes. Porém nenhum que seja totalmente chato.

Então me virei para olhá-la no fundo dos seus olhos verdes acesos e disse: Querida, já estou sentada. Pode começar sua história. E ela começou.

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12 thoughts on “Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte I.

  1. (Mas te dou uma dica: não dá pra aumentar o tamanho da letra? Sou meio míope e seria melhor pra mim que fosse assim!) [2]

    Hahaha! Os míopes tem que se unir, né? Adorei o post, que encanto de história, Mandy! Fiquei curiosa sobre o que Anna tem a dizer.

    Beijos!

  2. Adoro o seu estilo de escrita ^^ Perguntinha básica: é história verídica? Espero a continuação! … aaaah eu acredito em sábios jovens, sim! Afinal, se existem velhos inconseqüentes que nem mesmo a experiência curou, então pode existir jovens sábios sim… acho que são uma espécie rara e também muito tímidos =) é, acho que é isso.

    bjos!

  3. Li a alguns dias atrás e não comentei, fiquei pensando se era real ou não! Não cheguei a conclusão nenhuma, já que algumas das melhores lições vem de situações assim, inesperadas. Não sei se é real, mas é verossímil. E ficou ótimo!
    Também quero ler a continuação!

    beijos ;**

  4. Ah, amigue… posta logo essa segunda parte! .D Tô curiosíssima! Mas sabe, esse texto, pra mim, até não precisaria de uma continuação… sério, se vc nao avisasse que teria uma 2ª parte, ele não deixaria de ser lindo ;D
    Beiiijos

  5. (Mas te dou uma dica: não dá pra aumentar o tamanho da letra? Sou meio míope e seria melhor pra mim que fosse assim!) [3]

    Primeira vez que comento, mas já visitei aqui muitas vezes. Só queria dizer que adorei o texto. Ansiosa pela segunda parte!
    Beijiiin

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