Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte II

– Houve um tempo em que era um exemplo daquelas pessoas que a sociedade, depois de muito pensar, resolve enfiar na categoria ‘esquisita’. Eu não era comum, falou, sorrindo para um ponto bem além, para o horizonte, penso eu. Ou talvez para aquela sua antiga, aparentemente, vida. Eu sorri, e disse que comum era um conceito assaz dúbio. Ela concordou com um aceno e adicionou: – Mas eu não era comum mesmo. Claro que as pessoas pensavam que eu era uma menininha à toa, sem nada de mais interessante pra pensar. Mas acontece que eu queria viver a vida, de verdade. Não queria passar pela vida sem ter uma boa história pra contar. Uma história minha, sabe? Eu só queria um história que as pessoas não dormissem escutando. Ou lendo. Que as pessoas quisessem contar por aí. Eu não queria, nunca quis, ser mais uma na multidão. E estava disposta a fazer o que fosse possível para ter uma história respeitável comigo. Olhei para ela, acho, de uma forma meio medrosa. Não conseguia imaginar aquela garota com AIDS ou ainda tomando drogas e aqueles belos olhos verdes avermelhados. Me bateu um medo de ter me envolvido numa conversa com alguém perigoso. Bom, pensei, agora é tarde. Não sairei antes de ouvir a história toda. Boas histórias são assim. Você paga quase qualquer preço para ouví-las, não importa o quanto te machuquem. Ela pareceu ter lido meus pensamentos: – Não usei drogas, não se preocupe. Também não quis ser prostituta. Pensei muito. E repensei. E achei que a melhor forma de viver é a vida era tendo o máximo de prazer com o qual eu pudesse lidar. Então resolvi. E essa é a história da minha tatuagem, sabe? Resolvi que tatuaria PRAZER na minha nuca, um lugar muito sensível à no mínimo, respiração alheia, se é que você me entende. Dei um meio sorriso e disse que, sim, entendia. Se entendia! – Pois é, ela continuou, e cada letra de prazer seria a inicial de um cara que me tivesse proporcionado isso. Prazer, sabe? Nada faria mais sentido, não acha? Achei estranho, mas assenti com a cabeça, não querendo perder o resto da história, embora eu, utilizando da minha humilde forma de ver o mundo, achasse muito mais interessante ver como as coisas se davam, ao invés de simplesmente projetar cada pedaço da minha vida. Perguntei a ela se o que ela tinha acabado de dizer não significaria que ela teria de escolher os amantes de acordo com os seus nomes – mais exatamente suas iniciais. Ela assentiu. – Sim, é verdade. Eles seriam escolhidos na ordem, também, das letras. Eu disse que achava essa uma tarefa muito difícil, de escolher os amantes, ainda mais tendo em conta tantos filtros. Ela continuou: Na verdade não foi. Uma vez que eu era muito bonita, jovem e estava afim, nada era impossível. Na verdade, era tudo muito possível. O difícil era só encontrar os candidatos que me apetececem, que mexessem com meus hormônios, que fizessem o sangue correr e o meu eu animalesco surgir. Uma vez eleitos, nada poderia me dissuadir de conseguir o que eu queria. Prazer. Houve um silêncio curto e então perguntei a ela quantos anos tinha quando começou sua busca. – Ah, eu tinha 15. Idadezinha clichê né? Eu sei. Mas achei que era a idade certa. Me senti pronta para a minha aventura. Tem certeza que quer ouvir? É um pouco longa. Assenti agoniadamente, extremamente curiosa pelo que viria a seguir e também com medo que ela desistisse de contar sua vida à completa estranha que eu era.

Ela olhou pra mim como que para ter certeza de que eu estava realmente interessada e então continuou:  – Pois é, não pense que eu saí caçando por aí. Não. Eu apenas fiquei alerta, alerta para os nomes certos acompanhados dos caras certos. O primeiro amante da lista foi Paris. Sim. Sua mãe era professora de História e gamada num conquistador barato, então você pode imaginar por que ele ganhou tal nome. Não farei descrições baratas dos meus amantes, não tenho sequer a remota crença de que minha descrição seria mesmo que loginquamente decente. Mas o Paris tinha um cheiro ótimo. Ele cheirava a sabonete. Sempre tive uma queda por cheiro de sabonete. Não tem nada melhor do que limpeza, certo? Pelo menos o cara tomava banho. Acho que tinha alguma amiga minha estava interessada nele, mas é claro que ela não tinha chance alguma contra mim e minha determinação. Decidi, logo depois de sentir seu cheiro bom, que ele seria o meu primeiro. O P do meu prazer. Ele seria meu conquistador barato e me sequestraria para a Tróia dele. Bem, passei bem longe. Ele me levou foi para um fusquinha apertado, porém limpinho. Cheirava a limpo, como o dono e brilhava. Ah, o primeiro carro. A primeira pegada num carro. Quando ele me convidou pra dar uma voltinha, sabia o que aconteceria. Senti o cheiro no ar. O cheiro de hormônios em ebulição. Os meus então, já estavam começando a evaporar. Eu suava frio, de excitação e expectativa. Foi ótimo. É, primeira vez dói mesmo. Mas eu tive várias primeiras vezes com ele. E cada uma era melhor que a anterior. Até que eu provei do que era bom. E quis mais. E achei que ele merecia ter o seu P tatuado na minha nuca, depois de conseguir atingir êxito na tarefa que ele, sem saber, tinha aceitado. Me proporcionar prazer. Devo dizer que nos pegamos em todos os lugares, menos na cama. Cama era luxo pra jovenzinhos de 15 (eu) e 17 (ele). Impossível obter. O fusca era apertado, mas muito acolhedor. Igual ao meu interior. Era enlouquecedor pra mim ver o quanto ele era suscetível a mim. Uma passada de mão no seu cabelo, um beijo atrás orelha, uma frasezinha sacana no ouvido dele e ele está lá, bem firme e forte, se você me entende bem. Não sabia que era tão fácil assim. Eu era muito mais difícil de agradar, embora isso não seja novidade hoje em dia pra nenhuma de nós do sexo feminino. Somos por vida mais exigentes, não é mesmo? Passei uns 3 meses nessa loucura com ele. Mas então ele quis tornar as coisas mais sérias. Não pude,  nosso contrato tácito envolvia sexo, sim. Mas eu não estava afim de amor. Adorava o ritmo da nossa relação, mas não queria envolver promessas de amor eterno na jogada. Tinha medo de não conseguir chegar na letra R. Tinha que ser disciplinada nas minhas conquistas. Então, eis que eu o deixei. A Helena abandonou o Páris. E o fusca. Ótimas recordações ficaram ali. Veja, estou arrepiada de lembrar, falou sorrindo e apontando para seus pelos do braço. No dia seguinte ao que resolvi terminar nossa relação, fui a um tatuador e tatuei a primeira letra. Um P. O tatuador achou meio estranho, perguntou se eu não queria nada a mais. Homens, pensei, sempre querendo nos oferecer mais do que desejamos. Olhei pra ele e disse que só o P era mais do que o suficiente. Escolhi o tipo de fonte e ele tatuou. Meu pais nem perceberam. E mesmo que percebessem, não ligariam muito. O acordo tácito era que eles não tivessem que se ver envolvidos em nenhum escândalo social. E isso não ia ocorrer. Eu era discreta. Eu fazia o que queria, mas não era como se eu quisesse que todo mundo soubesse. Paris correu ainda muito tempo atrás de mim. Soube do P na minha nuca e simplesmente enlouqueceu. Eu simplesmente disse que ele foi parte da minha história. Foi. Passado. Não seria mais. Letra repetida não formaria a palavra que eu queria. Demorou para se consolar, mas por fim foi chorar no colo da minha amiga. Ou, na verdade, fazer coisa muito melhor com o colo dela, que era enorme.

Nesse momento a pirralhinha, cujo nome descobri ser Alice, gritou pra mãe: Mais pipoca! Anna pareceu acordar de uma sonho. O sol estava se pondo, o céu laranja e havia pombos por todos os lados. Alice parecia aflita por aplacar a fome de todos eles. Anna virou pra mim e disse que sentia muito, mas teria de partir. Já era tarde. Alice precisava ir pra casa. Muito me entristeci por não ver o fim de tal história, que ao meu ver, estava apenas no começo. Ela naturalmente notou meu desapontamento: – Oras, nunca soube que minha história era tão interessante. Estarei aqui amanhã nesse mesmo horário, com minha filha, Alice. Talvez possamos nos encontrar e eu possa lhe contar o restante da minha história. Ou uma boa parte dela – disse, sorrindo, aparentemente muito surpresa por eu ter ficado tão intimamente interessada na sua vida. A verdade é que estamos sempre interessados na vida. Vida é vida. Estranho é se interessar pela morte. Da morte todos queremos distância. Assenti alegremente para ela e concordei, dizendo que estaria no mesmo banco amanhã, esperando apenas ter a leitura atrapalhada pela sua adóravel garotinha. Ela sorriu e se despediu, enquanto chamava Alice para ir embora, pegando sua mãozinha delicada e guiando-a, ignorando suas admoestações  sobre ainda ser cedo e sobre os pombos ainda estarem com fome e quererem mais pipoca. Eu sorri com aquela cena e previ que eu veria aquela cena ainda algumas vezes. E fiquei feliz com isso.

PS: Para quem ficou na dúvida, eu não vivi essa história. Pensei que leriam as categorias, mas realmente me lembrei que poucas pessoas prestam atenção em quais categorias determinado post está arquivado. Então, é um conto.  Similaridades com a realidade são só coincidência.

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14 thoughts on “Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte II

  1. Aiii amigue, esse seu conto daria um filme… melhor ainda, um livro! “Minsina” a escrever contos, porque né? Eu preciso deixar essa minha necessidade de escrever sobre “eu eu eu” all the time. E ah, eu quero mais dessa história, hein!
    Beijo beijo

  2. Ah! Eu realmente não li as categorias e me perdi pensando que era real. Desculpaaaa! Enfim, seu conto está ficando cada vez melhor! Esperando a continuação. Posso perguntar de onde veio a inspiração pra tal estória? Sempre fico curiosa com essas coisas =) saber de onde partiu a criatividade!

    =*

  3. Agora deu pra perceber a parte da ficção, com a tatuagem que é feita aos poucos… seu conto está avançando de uma forma bem interessante (agora quero saber como ela chegou nesse ‘& Amor’, mas pelo visto ficarei na curiosidade por um tempo).

    beijos ;**

  4. ARRASOU, MANDY *–* Nossa, que conto mara *-* Superenvolvente, dá contade de pedir por mais! E ainda foi melhor do que os outros, porque você aumentou o tamanho da fonte! Li tudo desta vez e tô esperando ansioso pelo resto da história!

    Beijo :*

  5. ADORO O SEU BLOG! AH, so pra deixar claro, aqui eh a mariana do pessoalices, eh que eu troquei de blog rsrs bem, eu super me interessei pela história, quero ler a proxima parte! Você escreve super bem, sabia?

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