Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte III

No dia seguinte, cheguei cedo por demais no parque. Na verdade, mal tinha conseguido dormir de tanto pensar em toda história intrigante e nos estranho da situação. Realmente, era uma história entre as histórias. Uma história que eu não podia deixar passar. Então, terminei adiantando minha chegada no parque, sem sentir. Tanto que tive tempo o suficiente para ler o meu livro, embora sua estória já não me interessasse mais e eu constantemente levantasse meus olhos de suas páginas para procurar por Anna. Será que ela viria, afinal? Vejam bem, não tinha nada para me provar que tudo aquilo que acontecera não fora um sonho estranho. Na verdade, todas as provas que eu tinha só me levavam a acreditar que a situação ocorrera num sonho mesmo e que eu, muito boba que sou, acordei pensando que teria direito à continuação do sonho. Sabe? Quando a gente acorda antes do sonho tomar o caminho que queremos e tentamos dormir de novo e sonhar com a continuação dele? Pois é. Eu me sentia assim, sentada naquele banco meio descascado do parque, de frente pros pombos famintos. Eu e os pombos. Nós tinhámos muito em comum. Nós nos acostumáramos com aqueles seres mágicos, nós nos apaixonamos por eles, nos deixamos levar. E agora, ansiávamos por eles e pelo o que eles traziam consigo. Anna, suas histórias para mim. E Alice, sua pipoca, para os pombos.

Eu estava nessa quando os pombos arrulharam de forma meio exagerada, até mesmo para eles, que nãoe ram nada discretos. Olhei na direção do som e vi uma certa menininha loira correndo feliz em diração aos pombos, cheia de amor e pipoca pra dar. Eles mal podiama creditar na sua sorte. E eu também não, ao ver Anna sorrindo na minha direção. Acenei rapidamente para ela e apontei para o banco onde eu estava sentada.  Ela caminhou até onde eu estava: –  Olá, querida, disse sorrindo, Qual o seu nome mesmo? Sorri, lembrando que não tinhámos nos apresentado totalmente ontem e respondi que é Amanda. Ela então pediu para que nos sentássemos na beira do lago naquele dia, pois havia enjoado do banco no qual eu estava sentada. Não pude deixar de rir da nossa diferença de personalidades. Eu, sempre indo ao parque e sentando naquele mesmo banco desde…desde sempre, creio eu. Ela, que eu nunca tinha visto por ali, só sentou naquele banco uma única vez – que eu saiba – e já estava enjoada dele. Não quis comentar, mas tinha medo que ela enjoasse de contar a história pra mim. Então levantei rápido e segui-a até a margem do lago. Ela estendeu uma pano florido na grama e nos sentamos. Ela sorriu e disse: – Sou muito volúvel, é verdade. Mas a minha volubilidade não é maldade, nem nada. Eu apenas tenho a noção de que tenho muito pouco tempo na Terra e quero aproveitar o máximo de sensações que me são possíveis no momento. Sei que esse negócio de viver a vida intensamente é clichê. Mas do jeito que eu faço não é. Eu só vou por um caminho diferente, experimento um novo sabor de biscoito, leio um livro que não me chama atenção. Sabe? Só pra ver no que dá. Pode ser que dê extremamente errado. Mas pode ser que eu me surpreenda, não é mesmo? Acenei que sim, olhos fixos nela, esperando o momento que ela iria continuar a história de ontem. Ela sorriu – na verdade, ela sorria muito, e isso era encantador nela – e continuou: Eu sei que você está bastante ansiosa pra saber a continuação da minha história e isso em deixa realmente chocada e feliz. Afinal, se você se interessa por ela, então ela não é apenas uma historiazinha vulgar. Quero dizer, eu já sabia que tudo tinha sido válido, mas ver o seu interesse me deixa muito feliz. Ela parou, olhou pro meu rosto ansioso e resolveu enfim começar.

– Então, parei no Paris, certo? Bem, como já disse, acabei tudo com ele, já que ele fez a bobagem de se apaixonar por mim e acabar com minha felicidade. Então, tive que passar para a próxima letra. Um R. E logo que comecei a pensar na mesma, lembrei do Ricardo. Ricardo era uma antiga paixão platônica minha, por isso pensei muito antes de elegê-lo como minha próxima letra da tatuagem. Por que, claro, eu corria o risco irremediável de me apaixonar por ele de verdade e aí eu ficaria só no PR. Mas, se eu conseguisse controlar meu coração, seria uma ótima aquisição, sem dúvidas. Não me olhe assim, querida. Eu tinha que tratá-los assim, para o meu próprio bem. A regra era escolher os melhores para terem suas inicias no meu pescoço, mas eles não seriam alvo de uma consideração maior por causa disso. Seriam apenas uma aprte boa do meu passado. Passado. Morto. Claro que você sabe que eu não resisti a correr esse risco. Dele eu queria mais. Eu queria fazê-lo sofrer, não sei bem por que. Queria fazer ele se apaixonar por mim, embora eu não fosse me apaixonar pelo mesmo. Acho que era algum tipo de vingança por todo o tempo que amei-o em silêncio. Não que ainda o amasse quando resolvi escolhê-lo. Foi algo que aconteceu há pelo menos 2 anos. Eu já estava curada da minha paixonite. Outros a curaram. Mas ele não se safaria fácil do seu castigo. E eu seria sua torturadora.

Ricardo era um moreno claro bastante bonito. Tinha uns traços meio aristocráticos, um nariz afilado, um maxilar bem delineado. O corpo malhado de quem malha por prazer, não aquelas coisas bombadas horríveis. E olhos totalmente pretos. Bem. Como já te falei, não era nada difícil conseguir os caras. Ricardo também não foi. Eles fogem apenas se perceberem que você quer uma coisa que eles não podem te dar. Mas quando é você que quer dar alguma coisa pra eles, eles simplesmente correm pra cima de você. Claro, sempre há exceções, e eu conheci uma, como te contarei depois. Mas a maioria é assim e Ricardo, para desgraça dele, não era diferente. Umas insinuações, uns cochichos e umas cervejas depois – ele bebeu, eu não. Queria estar muito sóbria para avaliar como ele se sairia – e ele estava no papo. Dessa vez, não foi num carro. Ricardo era de família rica e tinha dinheiro para gastar, então me levou pra um motel muito caro e, claro, aproveitei o máximo que pude do mesmo. Tive que admitir que ele também mandava muito bem na cama e certamente teria seu R devidamente tatuado na minha nuca.  Experimentei muita coisa com ele. Principalmente posições sexuais diferentes, camisinhas de gostos variados e maneiras diferentes de enlouquecer e fazer enlouquecer. Eu era extremamente safada com ele, diferentemente da forma com a qual agia com o Paris, por exemplo.  Eu o excitava em público e ele queria me matar e me possuir ao mesmo tempo. Era algo muito profundo e, ao mesmo tempo, apenas atração. Durou uns seis meses, tempo suficiente para fazê-lo se apaixonar por mim. Chegou o dia dos namorados e lá veio ele com ursinhos, bombons e um pedido de namoro sério. Sabe? Pra noivar, casar, ter filhos e ficar velhinhos juntos. Ah, meu bem. O que o sexo não conseguir, nada mais consegue. Eu olhei com desprezo para aqueles presentes e para a declaração de amor dele, que pairava no ar mesmo minutos antes de ter sido proferida, como uma nuvem negra anunciando um temporal. Sim. Ele se declarou pra mim. E, se eu quiser ser sincera, não posso dizer que não me senti balançada.  Claro que sim. Aquele seria sem dúvida uma aquisição amorosa ainda melhor do que Paris. E não posso negar que estava muito difícil domar meu coração em relação ao mesmo, já que passamos 6 meses fazendo o que a maioria das pessoas chamam de amor, mas que eu insistia em chamar de única e exclusivamente sexo. Não queria misturar as coisas. Não podia ou seria o fim da minha empreitada. Então, informei-o de que não me sentia assim em relação a ele, o que não era totalmente mentira. Mas também não era totalmente verdade. E disse que era melhor para nós dois que as coisas terminassem por ali mesmo e ele, tão em estado de choque estava, que  concordou sem pestanejar comigo. Ele não esperava que eu, euzinha, não correspondesse aos seus sentimentos. Ele misturou. E agora tentava achar uma explicação decente para o que eu fazia. Não deve ter encontrado uma muito lisonjeira, já que não estava sabendo do meu objetivo. Provavelmente fiquei gravada na mente dele como uma putinha ordinária que não sabia amar.

Não passou muito longe do que pensei de mim mesma. Foi muito difícil, pra mim, ir em frente depois do Ricardo. Então percebi que não poderia mais passar tanto tempo com os meus futuros… futuros o quê?  Não consigo uma palavra que os defina decentemente. Meus futuros homens? Estranho. Muito vulgar. Embora a minha empreitada fosse apenas uma busca pelo prazer, temia ser malvista. O machismo existe e com vontade. Mas eu não me deixaria abalar por tão pouco, não depois de já ter começado. Então fui no mesmo tatuador e pedi um R, logo após o P. Ele achou extremamente estranho, mas dessa vez apenas fez o que deveria ser feito, sem perguntar mais bobagens. E resolvi que assim agiria nas próximas letras. Não envolveria mais sentimentos escusos onde eles não eram chamados. Só cometo erros uma vez. Acho.

Anna silenciou e ficou olhando o lago calmo e os patos calmamente planando nele. Perguntei a ela se ela iria embora cedo hoje. Ela sorriu e disse que não fora embora cedo ontem, mas que hoje só iria embora depois de terminar de contar toda a história, pois não aguentaria vir àquele parque mais uma vez. Sorri, sem entender como passaríamos o dia todo no parque. Perguntando sobre isso, ela disse que trouxera almoço para todas nós. Teríamos um perfeito piquenique na grama, com direito a toalha zadrez e cestinha de palha. Cada momento perto de Anna era mais uma razão para eu achar que tinha me infiltrado em algum livro louco e não conseguia/queria sair dele. Perguntou se eu queria almoçar agora. Eu disse que tanto fazia. E ela se levantou, chamando sua rebenta para a refeição.

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10 thoughts on “Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte III

  1. Seu conto está cada vez mais instigante. A Anna é massa e, realmente, ela não ecziste hahaha
    é como um paradoxo legal de acompanhar… ela é tão intensa, mas tão racional, tão contida em algumas situações…
    talvez todo mundo tenha um ‘cadinho’ de Anna. Mas acho que só saberemos mais tarde 🙂

    ;***

  2. Oie, Mandy. Amando muito o conto, super envolvente. Sabe quem a Anna tá me lembrando? A Summer de ”500 dias com ela”. E eu mesma, num passado não tão distante ;x
    Espero as próximas partes!

    *

    Sobre o meu conto: Brigada, flor *.* Fiquei feliz, feliz de verdade por você ter gostado. Ah, não quis terminar ali porque queria um final diferente pra protagonista, ela merece.

    Beijinho :*

  3. Aaaaahhh amigue, e o resto dessa história cadê cadê cadê?
    Sabe, não pude deixar de associar Anna à pernonagem da Charlize Theron em Doce Novembro… claro que os motivos delas eram bem diferentes, mas uma me lembou a outra (:
    Tô adorando essa história, merece um livro, viu!
    Beiiiijo

  4. Buaaah o que que a anna tem que eu não tenho? (talvez alguns anos a mais rsrs) eu quero conseguir os caras facil assim também! Nossa, eu estou super viciada nessa história, esperei ansiosamente pela terceira parte e agora mal posso esperar pela quarta!

    Tô adorando essa história, merece um livro, viu! [2]

    Bem, quanto ao seu comentário lah no blog. Por mais que eu ache que sexo sem amor deve ser melhor, eu sei que eh coisa seria, eu não vou sair fazendo com o primeiro carinha que aparecer. Esse eh o problema, na verdade. Tenho medo que essa má interpretação das minhas amigas quanto a essa parte da minha personalidade acabe se tornando no futuro uma pressão para que eu seja a primeira do nosso grupo a transar.
    Não sei se é um medo bobo, mas…
    Nossa eu adoro o maçãs verdes, estou viciadona!

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