Me encontre às 4h30, na privada.

– Deus, não permita que seja assim. Era tudo o que ela podia pensar, sentada na privada, com o seu destino entregue a um pedaço de papel melado de urina. Sua urina. As duas últimas semanas tinham sido semanas de cão. Não que ela tivesse trabalhado muito. Não. Mas ela não conseguia dormir direito, pensando. Na verdade, ela se esforçava para não pensar. Mais que isso, ela proibia-se de pensar nessa possibilidade, com medo de que, ao pensar na mesma, ela se tornasse realidade. Então, o que não a deixava dormir era um grande oco preenchido com pensamentos que não deveriam estar ali por que ela não os queria ali. Então eles não estavam. Mas estavam. E assim se passou uma semana, na qual ela implorou para todos os anjos protetores que enviassem aquela bendita menstruação. Na semana seguinte, ela já tinha apelado pros santos, mártires e, claro, para o próprio Deus. Não que ela não merecesse tal castigo. Certamente merecia uma coisa muito pior do que ter um filho na situação que se encontrava. Mas acreditava na misericórdia divina. Mas eis que a menstruação continuou ausente, aquela maldita. Seu namorado ainda não sabia de nada, assim, abertamente. Mas ela sabia que ele estava desconfiado de  que alguma coisa acontecia, devido a alguns comentários aleatórios que ela fez. Porém, ela se recusou a dividir mais, antes de ter certeza. Para quê despedaçar todos os sonhos juvenis por uma psicose infundada?, era o que ela pensava.  No entanto… Bem, no entanto não era só o que ela pensava. Ela tinha medo. Como poderia não ter? Confiava que o namorado continuaria com ela viesse o que viesse, por que ela estava com ele há – bem, ela nem ao menos lembra quanto tempo. Parece mais uma vida inteira  e mais um pedaço de outra.

Quanto tempo dura uma vida? Bem, para ela, a dela estava prestes a acabar. Por que tudo o que ela idealizou iria água a abaixo, junto com a urina do potinho do exame, se ela estivesse realmente grávida. Tudo. A acabar por causa de uma tarde relativamente descuidada. Mas COMO podia ser? Sequer havia acontecido alguma coisa.! Tudo bem que ele se empolgara um pouco, e ela também. Mas, quando ela percebeu que não havia camisinha, ela retrocedeu o mais rápido que era possível. Para não ter que lidar com esse tipo de consequência. Agora pagaria por tudo o que falara das outras pobres coitadas. Seria ela a irresponsável.  Ela aprenderia tudo da forma mais difícil. E mesmo contando com ele  ao seu lado, seria difícil. Seria horrível. Ela mal queria pensar na possibilidade. No entanto, os 5 minutos fatídicos tinham acabado de passar e ela estava morta de medo de tirar o papel de dentro do potinho e ter que lidar com duas listras. Sentia vontade agora de ter dividido essa preocupação e suas consequências. Não queria sozinha puxar aquele papel molhado. Não queria sozinha lidar com aquele resultado, fosse ele positivo ou negativo. E se fosse positivo, não queria ter que ser ela a fazer cara de enterro para contar a sua alma gêmea que, bem, as coisas para eles seriam muito difíceis agora. Não. Não queria mais arcar com tal responsabilidade. Nunca quis. Mas não pensou. E agora precisa tirar o papelzinho de lá, antes que seu tempo de permanência extrapole. Tirou. Ficou olhando para o chão. E agora? Como fazer? Será que deve ser como arrancar um esparadrapo, ou a cera quente? Rápido, para ser indolor. Não parece que funcionará, de qualquer forma. Isso de ser indolor. Por que a dor vai ser prolongada. E compartilhada. Melhor olhar logo. Para quê a espera? Agora o saber está a uma levantada de cabeça. Olhe pra cima. Indepentemente do que acontecer, não será o fim da sua vida. Será o começo de uma nova etapa, dizia uma voz positiva no fundo dela.

Já aceitando o fato de ser uma futura mãe, olhou o papel. Uma listra. Oh. Uma listra. Então.

Esperou, parada, uma onda de alívio percorrê-la. Ela veio, mas ainda temerosa. O teste tem 99,9% de chances de estar correto. E se eu fizer parte do 0,01% azarado?, pensou ela, embora já estivesse mesmo descartando tal possibilidade. Graças a Deus, Graças a Deus. Muito obrigada, meu Deus. Você me deu esse amor e não para que fizessemos tudo errado. Faremos como deve, faremos como deve ser, mentalizava agradecida, enquanto se livrava das provas do seu crime. A casa dormitava silenciosa, às 4h30 da manhã. Seus pais dormiam os sonos dos pais que tem uma filha sem filhos, ainda. E parecia que, graças a Deus, eles continuariam assim por um tempo. Voltou a cama. Dessa vez dormiu. E não sonhou com nada. Afinal, esse era o sonho certo. Sua vida continuaria a mesma. Não era nem tanto pelo bebê. Ela é que odiava mudanças.

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One thought on “Me encontre às 4h30, na privada.

  1. Acho que todas meninas (as não virgem e não casadas, óbvio) já passaram por esse susto, né? Eu falo isso, porque já passei.
    Não cheguei a fazer o teste da farmácia, minha menstruação veio antes para acabar com a suspeita, mas me lembro do sufoco que era me imaginar grávida, nova e ainda contar para meus pais.
    Bjitos!

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