Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte V

Pedi a ela um momento e corri, a fim de comprar-nos picolés no carrinho que passava ali no parque naquele momento. Alice tinha finalmente adormecido e ressonava feliz na toalha xadrez que Anna havia trazido para almoçarmos. Eu tinha vontade, todo o tempo, de correr na minha casa e pegar um gravador. Sabia que nunca na vida conseguiria me lembrar de todos os detalhes que Anna estava me passando. E esse não é gênero de história que eu aceitaria esquecer. Mas achei que seria chato. Afinal, eu não a estava entrevistando, ou coisa assim. Ela estava me contando uma história. A sua história. Talvez demonstrar tanta vontade de guardar tudo não seja muito saudável para a nossa recente relação.

Perguntei ao moço que vendia os picolés quais os sabores que ele tinha. Ele disse que só tinha morango e limão. Fiquei feliz, pois adoro sabores azedos, mas não sabia sobre a minha nova amiga. Sequer tinha me lembrado de perguntar qual sabor ela preferia. Paciência. Levaria um de cada e torceria para ela gostar de algum. Pedi um de morango e um de limão e dei o dinheiro ao vendedor, deixando-o ficar com o troco.  Estava apressada para escutar o resto da história, que ainda deveria durar algum tempo. E, além disso, me sentia generosa por alguém estar sendo generoso comigo. É verdade. Generosidade gera generosidade. Provavelmente, mais tarde, o vendedor vai dar um picolé de graça para alguém. E esse alguém vai comprar um bombom para uma pessoa que ele ama. E… Enfim. Fui pensando nisso enquanto corria para a toalha vermelha, como uma criança ansiosa. Esbaforida, perguntei-lhe qual sabor ela preferia. Ela olhou para o pacotinho verde e o pacotinho rosa e escolheu o de limão, solene. – Passe-me esse, disse ela. Atendi o seu pedido, passando-lhe o pacote verde com estampas de limões amarelados, enquanto eu mesma abria o meu picolé de morango, que estava com uma cara boa. Se é que um picolé pode ter uma cara boa.

Ficamos um tempinho nessa, ela parecendo muito interessada no seu picolé azedo e branco. Eu terminei o meu e fiquei observando-a saborear lentamente o picolé, enquanto o mesmo derretia. Disse a ela, divertida, que se ela não se apressasse o picolé derreteria antes dela terminar de comê-lo. Ela olhou pra mim sem expressão e disse: Bem, isso é problema do picolé, não meu. Eu não me apressarei por causa da pressa dele. A minha vida eu vivo no meu ritmo, não no dele. olhei embasbacada para ela e não fiz mais nenhum comentário, para evitar tensões. Ela chupou seu picolé até onde pôde e depois, quando 50% dele tinha virado suco de limão, ela deixou-o de lado e, limpando os cantos da boca, perguntou: Então, quer ouvir a continuação da história? Eu continuei olhando para ela, implicitamente concordando. Ela, assim sendo, sentou-se em posição de meditação e continuou a contar sua história.
– Eu parei no Alexandre, não foi? Isso. Bem, o quarto foi o José Carlos que, obviamente, era chamado Zeca, como todos os Josés Carlos desse mundo. Ele era simples, em todas as implicações desse adjetivo. Ele morava numa casa simples, tinha uma família simples, uma vida simples. Estudava Geografia pela manhã numa faculdade pública – a que eu estudava – e, à tarde, dava aulas numa escola próxima da sua casa. Sua família era ele, seus pais e uma irmã bem mais nova – acho que a menininha tinha uns sete anos. Para ele a vida não tinha que ser complicada. Posso até chutar que a nossa relação, na visão dele, foi calma e sem maiores complicações. O que claro que não foi. Na verdade, me perguntei por muito tempo por que quis adicioná-lo a minha nuca, junto com tantos nomes ilustres. Quero dizer, todos eles tiveram seu quê de diferença bem à mostra. Mas, enfim, o Zeca era diferente, na sua simplicidade esquisita. Nós nos conhecemos, como se deve imaginar, na faculdade. Ele estava sentado, lendo algum livro chato de Geografia e eu observando-o à distância de uns dois metros. Ele tinha um cabelo castanho cortado tão certinho e um vento repentinho bateu na parte da frente do cabelo e fez ele cair nos olhos dele, como uma franja. Ele automaticamente colocou as mechas no lugar. O vento foi lá e fez de novo. Ele ajeitou de novo. Enfim, acho que tudo se repetiu umas cinco vezes até que eu cheguei à conclusão de que ele era o próximo da minha lista. Daí, você sabe, simples ou complexo, eu iria conseguí-lo pra mim. Cheguei perto dele, puxei conversa e ele, naturalmente, se mostrou interessado em conversar comigo. E depois se mostrou interessado em se enrolar num edredom comigo e fazer… o quê? Não era amor, claro. Para Zeca as coisas eram muito simples, era quase como se ele tivesse um script a seguir em sua vida. Ele ficou comigo por que era natural que ele ficasse, uma vez que eu estava me oferecendo de tão bom grado. E como eu era bonita, não era realmente um sacrifício. Ele deve ter pensado que, se é pra ser, que seja com uma gostosa. E eu estava ali, linda e loira, dando sopa total. Então ele me pegou, ué.

Não vou dizer que era ruim o sexo com ele. Não era não. Ele fazia de tudo para me agradar (por que é isso que os homens fazem, não é?), mas não era lá muito inovador. O papai-mamãe é gostoso, mas tudo enjoa com o tempo. Ele gostava que eu tivesse prazer, mas nada de orgasmos múltiplos. Quer dizer, pra quê né? Um abuso. Sem simples, descomplicado. E com o tempo, muito aborrecido. Ele era fofo e tudo, sempre trazia bombons pra mim, nunca discutia comigo (não quer dizer que ele fizesse tudo o que eu queria, mas ele nunca discutia. O que era um saco), nunca deu ataques nem nada (na verdade, nunca teve motivo para), mas… Que coisa sem sal, sabe? Eu estava procurando mais e, sei lá. Provar da simplicidade dele foi gostoso, foi sim. Mas definitivamente não seria ele que me faria desistir da minha tatuagem. O fim foi bem calmo e, como não poderia deixar de ser, simples. Ele discutiu muito pouco e não ficou se lamentando pelos cantos depois. Sinceramente, até hoje não faço nenhuma ideia se ele se envolveu comigo, mesmo sexualmente. Tudo parecia natural, mas ele não aparentava estar conectado, sabe? Quer dizer, para ele tanto fazia. Foi diferente, e por isso eu tatuei o seu Z no meu pescoço. Mas jurei nunca mais pegar alguém tão simplório.

Eu me sentia como que numa missão impossível, tentando guardar tudo quanto possível da história. Não ia conseguir. Eu sequer estava anotando os pontos mais relevantes ou algo assim. Eu perderia os seus nomes. Eu precisava de tempo. Eu precisava anotar logo tudo o que minha memória RAM estava guardando, antes que ela enchesse a ponto de deletar tudo o que guardou pra guardar a informação nova que vinha. Então, eu corajosamente e morrendo de medo ao mesmo tempo, interrompi Anna, quando ela tomava ar para começar a letra E: – Anna – comecei. Ela parou, como que acordada de algum estranho estado de transe: – Sim… desculpe, mas qual é o seu nome? Meu Deus, como posso contar a história da minha vida para uma pessoa que nem sei o nome?! – chocou-se ela, passando as mãos nervosamente pelos cabelos loiros. Abri a boca num balbucio, mas ela me interrompeu: – Não, não diga o seu nome. Acho que prefiro não saber. Acho que prefiro não te conhecer. Não sei se você entende, mas é que o conhecimento traz tantos problemas. Se eu soubesse seu sabor preferido de bala talvez não pudesse te contar tudo o que estou te contando, com essa franqueza. Entende? Não sei, não sei… – murmurou, enquanto colocava umas das unhas bem-feitas na boca, meio mordendo-a. Sorri e assenti, acenando com a cabeça levemente: – Sim, Anna. Compreendo completamente. Talvez se você soubesse meu nome eu também não me sentisse tão à vontade para ouvir sua história. Ela sorriu com minha concordância: – Você é uma boa ouvinte – falou. – Sim, sou – concordei – mas não tenho uma memória tão boa, sabe? Você não poderia continuar a história amanhã? Temo perder os fatos que me conta nessa bagunça que eu chamo de cabeça. Eu preciso passá-los pro papel, preciso documentá-los.
Anna ficou olhando pro lago. Pensei que ela não ia querer me contar mais nada, por eu ser uma abusada que queria escrever a sua história, sabe-se lá com que intuitos. Foram longos minutos, nos quais dei por perdida a situação. That’s it. Já era. Nunca saberei o fim dessa fabulosa história. Tudo por causa da minha mania de documentar tudo. Mas que porcaria!
Fui me levantando da toalha xadrez e, enquanto espanava com as mãos algumas folhinhas de grama que tinham ficado presas no meus jeans, Anna finalmente falou: – Claro. Tudo bem. Eu realmente queria fechar essa página da minha vida hoje. Nem ao menos sei por que você quer tanto saber disso, sabe? Mas estarei aqui, pela manhã. Amanhã – parou, inspirou profundamente e olhou pra mim – Mas de amanhã não passa. Certo?
Não compreendi sua pressa em acabar com uma história tão empolgante, mas assenti mesmo assim. Anna falou: – Pode ir, se quiser. Vou ficar com Alice por um tempo, ainda. Alice não vai me perdoar se ela não der um último passeio no parque – falou sorrindo e acariciando os cabelos dourados da linda menininha adormecida no na toalha xadrez.

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4 thoughts on “Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte V

  1. Tá super legal a história, a Alice é muito interessante! Adorei isso: “Generosidade gera generosidade”, porque acredito que quando alguém é gentil com você, você passa isso para os outros mesmo que sem querer. Espero a continuação!
    Beijos

  2. Gostei do visual novo aqui, amigue.
    E sabe, o que é simples, definitivamente não me atrai. É aquela minha mania de deixar tudo mais intenso, pesado. Vai entender. Um pouco de simplicidade até vai, mas complicar é preciso. Sei lá porquê.
    Beijo beijo

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