Saga CDU/Várzea I

Acho justo explicar, antes de fazer vocês lerem tudo isso, não é? CDU/Várzea é o ônibus LOUCO que eu pego para ir e voltar da faculdade. E cada viagem nele é única. Como passo aproximadamente 8,333333 (e aí por diante) % da minha vida nesse recinto, resolvi fazer um especial de 5 dias com o CDU para vocês sentirem o drama. Ou não. Enfim, já expliquei.

Vinte e um de outubro de dois mil e dez.

O ônibus, como sempre, me fez correr uns 3 metros depois da minha parada. Nunca entendi qual o problema dos motoristas do CDU/Várzea em parar na parada. Mas sei que isso é provavelmente que nem perna de cobra, quem vê morre e essas coisas. Entrei no ônibus às 17:58. Corri para as cadeiras da frente, que são separadas para grávidas, deficientes e idosos. Só que, geralmente, eles não preenchem todas elas, como era o caso naquele momento, e eu que  não ia ficar em pé lá atrás, quando podia ficar sentada na frente. Uma mulher, que também não era grávida (embora estivesse gorda como uma), nem deficiente e muito menos idosa sentou-se ao meu lado. Me distraí olhando um pouco para a janela e pensei, com desânimo, que ainda ia demorar muito para chegar em casa. Umas duas paradas depois, a mulher que estava sentada ao meu lado deu lugar para um homem que puxava esquerda e fedia a azedo. Por azedo, entendam aquele odor de suor velho, que as pessoas adquirem depois de uns dois dias de trabalho braçal sem banho. Pois é, a situação estava ruim assim. Fiquei pedindo aos céus que o cara mantivesse suas axilas devidamente apertadas, pela possível importância que a minha vida possa ter, por que olha. Mas não que isso adiantasse de muita coisa. Fedia. Muito. Achei que era meu castigo por sentar na cadeira dos idosos.  Se bem que não tinha nenhuma razão para isso, uma vez que não tinha nenhum idoso de pé. O motorista não acendia a luz da frente nem por um decreto, tornando impossível a leitura do livro que eu trazia comigo – A História da História em Quadrinhos, muito bom por sinal. E aquela maldita janela não abria mais do que a brechinha minúscula e definitivamente não era suficiente para anular aquele fétido odor que eu estava suportando.

Certo, então é isso. Ou eu saio, ou eu morro. Tinha certeza que já estava azulando, por que estava prendendo a respiração a maior parte do tempo e, quando achava que podia arriscar, dava uma respiradinha, só para me arrepender depois. Catei na bolsa meu VEM (Vale Eletrônico Metropolitano, acho) enquanto segurava a respiração. Corri do banco, enquanto meu cérebro ainda  tinha oxigênio suficiente para conseguir raciocinar. Outro louco que sentasse ali, eu que não me habilitava mais. Antes ir o caminho todo em pé. Rodei a catraca e passei para a parte pagante do ônibus. Estava cheio, mas nada que se comparasse a tragédia grega que peguei na ida (fui sentada na ida, mas sufocada de tanta gente à minha volta, o que me dá uma agonia claustrofóbica). Achei um cantinho no qual o meu risco de queda era praticamente nulo, um basicamente do lado oposto de onde o cobrador fica. Um carinha que estudava uma apostila do Contato pediu minha bolsa. Voltei alguns anos e me lembrei de quando era eu a andar com 857 fichas verdes, todas brilhantes de marca-texto, e senti muita pena dele. Entreguei minha bolsa e , continuei a observar as pessoas ao meu redor e a digitar furiosamente no meu Nokia.  A  avenida Caxangá parece interminável a cada percurso e  terminei por descobrir que o lugar que eu escolhi para me encostar não era tão bom assim. Pessoas-Lesmas esbarravam suas mochilas-caracóis em mim, toda vez que tentavam passar a catraca. O balanço chateante do CDU/Várzea fazia meu estômago começar a se rebelar e a minha cabeça a clamar por misericórdia. Mas o meu Cookie estava  quase descarregando e eu não podia escutar música, o que geralmente me ajuda a esquecer a viagem. Passamos pela frente do Colégio de Educação Integral e o ônibus começa a encher de forma preocupante.  Mas, felizmente, no lugar que escolhi, ninguém se esfregava em mim nem me apertava, o que já é bem alentador.

A população do ônibus é feita de gente com sono, com calor (olhei no Climatempo e lá dizia que a temperatura de hoje foi de 27º. Eles só esqueceram de adicionar: SENSAÇÃO TÉRMICA FROM THE HELL), estudantes psicóticos lendo alguma coisa urgente (e acabando com sua visão, como um estranho me disse certa vez nesse ônibus) e conversas paralelas desinteressantes. Um cara com uma camisa do Sport olha pra mim e eu desvio o olhar. Devo parecer estranha digitando loucamente no meu celular, mas seria muito pior se eu estivesse utilizando o gravador. Aí sim, bem. Provavelmente eu seria expulsa do ônibus por que né, ATÉ LOUCURA TEM LIMITE. O ônibus finalmente se encaminha para o Derby. Nas imediações da UPE há o abarrotamento de carros costumeiro. Aquela lerdeza me dá uma coceira. Por que o teletransporte ainda não foi inventado? Uma mulher de verde me encara. Ela está com umas olheiras panda style de fazer inveja. O carinha do cursinho me entrega minha bolsa e se  levanta, dirigindo-se à saída do ônibus. Ao lado do ônibus passa outro CDU,  praticamente vazio, e eu penso na maldade do destino que me fez largar cedo hoje e cheirar aquele  cara fedorento. Sei que depois dessa (horrível) experiência nunca mais serei a mesma. Mas pelo menos estou sentada. Embora nesse momento o õnibus estivesse quase na conde da boa vista e isso não fazia mais tanta diferença. Passo na frente do comitê de Serra. Está iluminado e parece estar rolando a maior balada, mas eu vou votar em Dilma, embora a vontade seja de anular meu voto. O ônibus está esvaziando.  Estamos na Boa Vista. Apenas duas pessoas de pé e, acredito, por vontade própria. Já fiquei em pé com o ônibus todo vazio, praticamente. Foi de raiva. O ônibus veio esvaziar na Riachuelo, nesse dia! Aí eu não quero mais, né? Oras!

A garota atrás de mim me encara, curiosa. Eu ignoro e continuo digitando. Minha cabeça lateja. Entra uma menina com uma blusa linda, da Minnie. Pelo menos achei a parte de trás da blusa linda. Ela é loira e tem um cabelo lindo, também Na verdade, tem o cabelo pintado de loiro, mas whatever. Mudo de lugar e vou sentar numa cadeira perto da saída do ônibus, no lado esquerdo. Me fez envergonhar de ter ido tão de qualquer jeito para a faculdade.  Mas por que eu iria super produzida, afinal de contas? Não perdi nada lá. Pedem parada duas meninas com camisa de Educação Física da UFPE. Provavelmente vão na Grande Recife encher o VEM. O cheiro de acarajé de quinta entra pela janela. O ônibus chega a última parada da Boa Vista. As unhas da menina loira são azuis. Mas gostei bem mais da verdes de Carol. Três paradas e, então, a minha. Dois bancos à frente, do lado direito, uma mulher que usava uma piranha verde abacate num cabelo que deixava muito a desejar  folheia o Aqui PE.  Sinto vergonha alheia, mas ainda por que a mulher não deve estar nem aí, tão inocentemente folheiando aquele jornalzinho de quinta. Mas penso que, se me chamassem, eu trabalharia lá. Toda experiência é válida, não é? Ou não? Só mais uma parada. O outro CDU passa de novo pelo ônibus, ainda mais vazio. Raiva. Levantei. Uns 6 homens levantaram comigo. Não gostei. Mas todos pareciam gente decente. Pedi parada, me segurei na curva acentuada que vem antes da minha parada. Desci. A lua cheia, enorme, enchia o céu. Perdoei o destino. 18:45.

Anúncios

10 thoughts on “Saga CDU/Várzea I

  1. Massa o texto, Amanda! Vida de universitário sem carro é fogo mesmo… Já desci de ônibus qnd tava mt cheio pra esperar outro, lugares mt apertados tb me dão agonia. Quando eu estudava na Unicap tinha q pegar o CDU-Várzea pra ir e voltar pra Cde. da Boa Vista e ainda andar mais pra ir pra aula. Ainda bem q agora posso ir à pé pra federal, eheheh, beeeem mais tranquilo! Beijo!

  2. Pingback: Tweets that mention Saga CDU/Várzea I | maçãsverdes[dot]com -- Topsy.com

  3. Nossa Amanda, consegui imaginar o cheiro da criatura! O ônibus que eu pego pra voltar da faculdade é muito tranquilo, posso contar nos dedos as vezes que tive que ir a pé, e nunca esbarrei com gente fedida. Graças a Deus, porque não tenho a menor paciência pra isso, hahaha.
    Quero ler logo as outras partes, hehe.
    Beijos

  4. hahaha, ri tanto ao ler seu texto porque já peguei o dito-cujo ônibus e já senti o seu drama. Foram momentos terríveis os da chegada e saída da UFPE – porque tem cada um mesmo que eu vou te contar. Mas, se consola, aqui em São Luís não é tão melhor – e eu ainda pego TRÊS ônibus pra ir pra UEMA, sendo que as filas para entrar nos mesmos… Bom, prefiro nem comentar. O fato é que existe sempre um CDU/Várzea onde quer que a gente vá, garanto. Que droga. hihi
    Beijos!

  5. Eu evito pegar ônibus por conta desses problemas. Na verdade, tenho sorte: trabalho e colegio sao pertos de minha casa, vou andando. O que for longe – teatro, cinema, shopping – tambem vou andando.
    Eh que tenho claustrofobia. E acredite: nada é pior do que onibus lotado às seis da tarde em dia de chuva, aff!

  6. haha tbm sempre pensei em fazer isso com um onibus que eu pego sempre! mas deixei pra fazer so quando tiver minha camera!
    onibus é tenso… essas horas eu ate entendendo a populaçao q compra tanto carro. se o sistema d transporte publico prestasse era outra conversa…
    bjo!

  7. Morro de vontade de escrever um texto sobre aventuras no ônibus, mas nunca nada de interessante e bizarro acontece comigo. E também porque como vários ônibus passam perto da minha casa, eu sempre vario de acordo com meu humor, haha
    beijos

  8. É amigue, ônibus cheio é realmente uma coisa triste. ODEIO. Ainda bem que Mariana é uma cidade pequena e não preciso me preocupar em pegar lotação todos os dias. Mas até as coisas fedorentas e abarrotadas de gente desinteressante tem lá seu lado interessante. HA.
    Saudades de te ler.
    Um beijo, nêga.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s