Sobre seus cabelos finos e ralos

Eu acariciei o cocoruto da sua cabeça e passei a mão nos seus cabelos. Era por volta das 17h quando meu pai me ligou, afobado, avisando que minha vó levara um queda e quebrara o fêmur. Eu estava na casa de Weslley e tentei disfarçar meu desconforto – não que estivesse conseguindo enganar alguém, já que Weslley perguntava o que é que eu tinha de 5 em 5 minutos. Não consegui ficar em paz até o pai dele chegar com o carro e podermos, finalmente, ir visitar minha avó no hospital.

Na verdade, eu não fiquei em paz até que a vi. Viva. Dolorida, machucada, mas viva. Vocês sabem o que dizem  por aí. Que pra gente idosa qualquer queda é a morte. E quebrar o fêmur não é pra qualquer um – para quem não sabe, o fêmur é o osso da coxa. É o osso mais longo, mais volumoso e mais forte também. Ou seja.

De qualquer forma, minha vó é uma marota. Não fez até hoje o exame para saber se tinha osteoporose. E, assim sendo, não faz reposição de cálcio. O que eu acho um absurdo, mas vá você discutir com ela. Provavelmente foi dela que eu herdei o gene da teimosia, que está disponível – claro – em toda a família. Ela é a culpada por nossa família ser formada por um bando de cabeças-duras insistentes. Mas ela também é dona do coração mais mole e doce que eu conheço. Aparentemente ela caiu quando subiu em cima de uma cadeira bamba qualquer para pegar alguma coisa que certamente poderia ter pedido às pessoas que estavam na casa. Mas ela jurará até a morte que escorregou, mesmo com todas as evidências apontando contra essa hipótese.

Não sei explicar o que eu senti quando vi minha vó em cima da maca. Só simplesmente falei, sorrindo: “Sua veia enxerida”. Minha vó falou alguma coisa que não lembro mais, por que estava concentrada nas lágrimas que ela tentava disfarçar enquanto nos contava – a mim e a Weslley – como caíra. Doeu em mim, aquelas lágrimas. E eu percebi que não estava pronta pra abrir mão daquele ser na minha vida. Não que eu já não soubesse disso. Mas a gente sabe meio que no inconsciente e, muitas vezes, não se dá conta disso até ser tarde demais para aproveitar o tempo com aquela pessoa.

Parece clichê. E é. Eu creio que sou a blogueira mais clichê da web. Mas ninguém está obrigando vocês a me lerem, não é verdade? Vocês podem apertar o xiszinho lá em cima e simplesmente acessarem algo completamente inovador e refrescante. Eu ficarei com o meu clichê. Pode ser clichê, mas é verdadeiro. E cheio de sentimento. Como todo clichê.

Minha vó praticamente me criou. Meus pais tinham que trabalhar durante o dia e eu, obviamente, não podia ficar sozinha. Minha vó e minha tia me alimentaram, deram banho, puxaram orelha até pelo menos os 12 anos. Das 12h às 18h, o que é um grande horário se você levar em conta que pela manhã eu estava no colégio e à noite íamos para casa apenas pra dormir. Então, for real, ela é muito mais do que uma vó para mim. E ser minha vó não é pouco.

O fêmur dela quebrou de uma forma não muito bonita e estava causando muita dor. O médico queria fazer não-sei-qual-processo-doloroso que envolvia colocar uma tala e tal, mas a enfermeira o dissuadiu, dizendo que minha avó não ia aguentar a dor. Eu não faço a menor ideia de como é ter um osso como o fêmur quebrado – nem estou afim de descobrir – mas as lágrimas da minha avó me deram a dica de que não era nem um pouco confortável. Mas também podia ser o emocional dela.

Minha vó é tão molenga quanto eu quando doente. Fica emotiva, chora com qualquer coisa. E adora ser mimada. Espere. Essa é minha avó normalmente também. Acho que peguei isso dela.

Me lembro quando tive catapora e nem minha mãe queria cuidar de mim, de tão horrível que eu fiquei. Quando eu digo horrível, é horrível. Tinham tantas pústulas que acho que não sobrava espaço para uma agulha entre uma e outra. Ok. Talvez eu esteja exagerando. De qualquer forma, minha mãe não queria cuidar de mim – não que isso me cause qualquer choque, uma vez que é da minha mãe que estamos falando. Então minha vó me dava banhos de uma substância roxa que esqueci o nome. Diminuía a coceira – e me deixava mais feia do que eu já estava, por que além de tudo eu ainda ficava roxa. Ela me mimava, fazia minha comida, se preocupava. E não ligava para o fato d’eu estar assustadora. Apesar d’eu ter chorado uma ou duas vezes por conta desse fato.

Minha vó adora cafuné. Ninguém pode mexer em seus cabelos que ela já está dormindo. Quando a enfermeira disse que ia imobilizar a perna da minha vó – e que ia doer por que ela ia mexer na perna para imobilizá-la, óbvio – eu já sabia o que fazer. Fiquei fazendo cafuné, enquanto minha vó gemia baixinho. Weslley ficou responsável por segurar a perna da vóvis – uma grande responsabilidade – enquanto a enfermeira enfaixava. Ela gemia e eu via as lágrimas descendo pela sua face. Eu dizia: “Já está acabando, vó”. Ou: “Só falta mais uma faixa”. Mas me doía tanto ver a pessoa que  tantas vezes enxugou meu pranto chorar de dor.

Sei que o post não o menor sentido para vocês. Não faz nem pra mim. Estava tentando dividir o aperto no meu coração, mas tenho certeza que não fui bem sucedida. Apenas me resta deixar claro: eu amo muito a minha avó. Se vocês não tiverem percebido isso ainda.

PS: Minha avó está bem, gente. Não precisam ficar preocupados. Ela vai fazer uma cirurgia amanhã para colocar o fêmur no lugar e quinta já deve estar em casa. 🙂

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3 thoughts on “Sobre seus cabelos finos e ralos

  1. É, eu ia te perguntar agora como está sua avó, mas que bom que vai ficar tudo bem 🙂
    Não lembro muitas coisas sobre minha avó – tinha só cinco aninhos quando ela foi antes da hora. Me lembro de seu cabelão ondulado grisalho, de seus vestidos, dela brincando feliz comigo na noite antes daquele dia.

    O negócio é valorizar sempre quem a gente ama, ou pode ser tarde demais 😉
    melhoras a sua vó 🙂

  2. Também fui criada – ou estragada -, pela minha avó. Quando ela faleceu (há cerca de oito anos) entrei em depressão. Assim como você, não estava pronta. Claro, é clichê. Mas fato é que não há quem esteja pronto para perder alguém.
    Desejo tudo de bom na cirurgia da tua vó. E desejo que você se tranquilize. Manda um beijo pra ela, por todos os seus leitores.
    Abraços. Fique bem.

  3. A essa hora ela já deve estar em casa, mas você conseguiu passar a dor pra cá. Fiquei imaginando você olhando para os olhinhos dela com lágrimas; ai que saudade da minha avó que mora longe e da que já sei foi…
    “Como todo o clichê”, foi uma frase que se encaixou. Sim, sou um pouco clichê também e, como todo o clichê, o sentimento é “bobo”.
    Bjitos!

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