Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte VII.

Gostaria de agradecer a todos você que acompanharam essa história até agora pela paciência. Depois de mais de uma ano do primeiro post, estou finalizando esse conto. Espero que vocês gostem do final.

Ao término da última letra, a protagonista/autora/intérprete da história recostou na poltrona e baixou o rosto. A franja longa caiu no rosto e ela parecia insondável. Caiu um longo silêncio entre nós e comecei a ficar nervosa. Não gosto de silêncios abruptos. Ainda mais vindos da pessoa que monopolizara a conversação até então. Estava me preparando para perguntar se estava tudo bem quando Anna ergueu os olhos e vi que eles estavam brilhantes. Brilhantes demais. Senti cada partícula dela rangendo e sofrendo para evitar uma propulsão de lágrimas. Ela estava sofrendo.

– Anna, – comecei – você não precisa terminar a história, se isso estiver doendo. Doeu muito em mim falar aquilo. Se doeu! Minha curiosidade gritava dentro de mim e queria por que queria saber o final da história. Saber sobre o amor. Eu sentia que aquele pedaço era o mais importante. Sem ele a história seria apenas… eu não sei. Vazia, apesar de tantos detalhes inseridos nela. Mais do que incompleta – sem sentido. Eu ouvira todas as façanhas sexuais de Anna, mas estava com os olhos na tela, esperando que algo a mais acontecesse. Algo que fizesse tudo aquilo valer a pena. Não vou mentir, sou uma romântica. O sexo pelo sexo, como a Anna comentou, não faz minha cabeça. E eu esperava que o amor acontecesse, como ela me falou no nosso primeiro encontro. O amor que nos envelhece. Nos deixa mais sábios.

Anna respirou fundo antes de começar. – Não – disse ela – eu preciso terminar a história. Preciso. É o final, não é? Me dói muito esse final. Sim, me dói tanto que estou lutando com as lágrimas uma guerra perdida – uma lágrima escorregou das bordas dos seus olhos, seguida por outra –, e pensando se realmente vale a pena tirar isso de dentro de mim a custo de tantas dor. Mas eu sei que eu preciso. Eu não posso simplesmente te contar quase toda a história e te esconder a parte que mais me marcou. E não falo da tatuagem. Sim, o amor está marcado na minha nuca. Mas, mais do que isso: meu coração foi marcado. Cada substância minúscula do meu corpo segue a rota dele. Eu simplesmente não sou mais aquela Anna que esteve presente durante todos os capítulos anteriores. E você precisa saber por que.

Eu me sentia absurdamente maligna por deixar que ela continuasse com a narrativa. Mas, ao mesmo tempo, via que aquela dor era uma dor constante que apenas transbordara. Não ousei respirar. Anna limpou os olhos com as costas das mãos, se ajeitou na poltrona e prosseguiu.

– Eu já havia completado a minha tatuagem, no meu ver. Então, de certa forma, todos os homens pareciam desinteressantes. Eu não conseguia firmar laços com ele, mesmo que eles me proporcionassem orgasmos múltiplos – como foi vários casos. Não conseguia, quando eu não tinha nenhum objetivo com eles, além de simplesmente fazer sexo. Ora, para fazer sexo eu não precisava namorar ninguém, precisava? Claro que não. Então segui a minha vida e ela estava daquele jeito que parecia piloto automático. Não era ruim, mas…não era bom. Então ele apareceu. Eu não vou nomeá-lo. Claro que ele tem um nome, mas dizê-lo ainda me dói. Além do quê, o nome dele não é importante. O nome não consegue passar o que ele foi e ainda é para mim. O nome é só um nome. Não faz diferença.

Numa noite de sexta, eu havia parado numa loja de conveniência, para comprar umas cervejas antes de ir pra casa. Tinha sido um dia difícil e eu planejava bebê-las assistindo alguma coisa e depois dormir. A minha vida estava um tédio de morrer, apesar d’eu sair quase toda noite. Mas naquela noite eu estava cansada. Cansada de tudo em particular e ia me encolher na minha caverna particular, até a vontade de viver voltar. Estacionei o carro e saí, checando as portas e ligando o alarme. Entrei na loja, que tinha um daqueles sininhos que avisam quando os clientes entram. A caixa olhou pra mim com desdém, olhar que correspondi. Tanto fazia, eu só queria comprar minhas cervejas e ir embora. Fui diretamente ao freezer/geladeira que guardava as long neck  e fiquei em dúvida entre uma marca e outra de cerveja. A mais forte. Peguei duas, então mudei de ideia e quando voltava para pegar mais duas, ele apareceu. Eu estava inclinada pegando as cervejas, quando ele falou: – Tem certeza? Simplesmente isso. Tem certeza? Certeza era uma coisa que eu não tinha havia tempo na minha vida. Levantei, abraçando as quatro cervejas, que molhavam minha camiseta de algodão e sorri educadamente, me esforçando para ser sociável: – Ahnn, sim. Tenho sim – respondi, enquanto me dirigia para o caixa. Ele deu a volta em mim numa rapidez que não me permitiu fazer nada senão parar enquanto ele se postava na minha frente. – O quê? – perguntei, confusa. – Você não tem certeza. Não faça – falou ele, os olhos cinza brilhando. Matutei na minha cabeça que aquilo era muito estranho. Muito. A coisa mais estranha que havia acontecido comigo em semanas, meses ou até anos. Levantei uma sobrancelha: – Preciso fazer alguma coisa, é sexta à noite. Beber, sair. É o que as pessoas fazem sexta à noite. Eu não vou sair, então vim comprar essas cervejas. Não sou nenhuma alcoólatra, não se preocupe – me justifiquei, sem saber bem o porquê. Ele era bonito de um jeito que não chamava atenção. Era difícil de explicar. Ainda é.  Ele era bonito, mas era uma beleza que dependia da sua boa vontade de vê-la. Os olhos cinza eram ativos e bondosos e o cabelo castanho era ondulado e alguns fios sempre caíam em cima da sobrancelha. O sorriso era fácil e leve. Um sorriso que ele me dirigiu, ao me responder: – Beber? Sozinha. Parece solitário. Parece chato. E começou a soltar as garrafas do meu abraço. Eu ainda não acreditava que estava tendo essa conversação numa loja de conveniência com um desconhecido de sorriso bonito. Ele estava tentando mudar meus planos, mas quem era ele? Eu nunca o vi. Não o conheço.

– Desculpe – continuei, sem real intenção de me desculpar, enquanto segurava a última garrafa de cerveja –, eu não o conheço. Nunca o vi. – adicionei com um tom que indicava que o meu argumento tinha uma lógica indiscutível – Por que está interessado? Por que não me deixa, simplesmente, comprar minhas cervejas em paz? – perguntei, levantando a sobrancelha. Ele sorriu novamente, um sorriso que, inadvertidamente, o faria ganhar todas as discussões nos anos seguintes: – Ah, essa é fácil! – o sorriso abriu mais – Achei que você era a perfeita parceira para uma partida banco imobiliário. De todas as respostas possíveis, essa. Fiquei boquiaberta, olhando para ele como se ele fosse louco. – Olha, sério. Qual foi? Você quer que eu jogue banco imobiliário com você? Quantos anos você tem? 5? – me irritei, enquanto tentava passar por ele para pagar a cerveja. A caixa ignorava completamente a cena, absorvida por uma, mais tarde eu descobriria, unha lascada. Ele ficou subitamente sério e disse: – Parece, então, que uma criança de 5 anos consegue se divertir muito mais do que você, não é? Por que beber sozinha não é uma opção muito inteligente – adicionou. Levantei o rosto. Olhei-o nos olhos. Quem era aquele maldito desconhecido que ousava dizer todas aquelas verdades – sim, eram verdades, eu sabia – na minha cara? Sem a menor preliminar? Eu não sabia e também não sabia se queria descobrir. Talvez banco imobiliário fosse um codinome para sexo selvagem e eu teria que passar mais uma noite fazendo posições psicóticas e mais uma vida sentindo um vazio que eu não sabia o que era, mas que era o meu maior companheiro no momento. Não que eu gostasse dessa companhia, mas não via como me livrar dela. Era como aqueles atendentes de telemarketing, que ligam pra sua casa e nunca desligam, fazendo você se arrepender pra toda a vida de ter atendido ao telefone. Ele sorriu aquele sorriso que ninguém jamais soube sorrir ante minha cara pensativa e disse: – Venha! Eu realmente gostaria que você fosse. Eu olhei pra ele. Eu queria ir. Eu queria que aquilo fosse como ar puro, depois de uma temporada de monóxido de carbono na cara. Mas, quais eram as chances? Aquilo não era normal, era? – Você não sabe quem eu sou – apontei, com um sorrisinho cínico no canto da boca. Ele devolveu o sorriso cínico: – Ah, eu te conheço. Conheço sim. – Ah, sério? – perguntei, cruzando os braços, ainda segurando a cerveja – E quem eu sou? Seus olhos inteligentes me fitaram: – Você é Anna. E tem belos olhos verdes.

Desisti e o segui, movida pelo choque dele saber meu nome.

Só depois me lembrei que estava com o uniforme da empresa, no qual tinha, obviamente, meu nome bordado.

Um sorriso leve dançava nos lábios de Anna. O amor intrínseco naquelas palavras era tão óbvio que eu soube que ele, seja qual fosse o seu nome, era o amor inteiro da sua tatuagem. Da sua vida. Provavelmente da sua existência. Eu soube que aquela noite foi, realmente, banco imobiliário. Soube que eles ganharam como dupla e perderam um contra o outro. Soube que houveram tantas partidas que ela começou a perceber que o fato deles funcionarem tão bem juntos e tão mal separados não era mera coincidência. Que o fato do sorriso dele aparecer na sua cabeça o dia inteiro a alegrava e o de que ela não passava mais sextas – nem segundas, terças, quartas ou qualquer outro dia da semana – em bares ou boates, procurando preencher um vazio, também indicavam que algo havia mudado. Ela soubera o que era esse vazio. Era ele. Ele que ela procurava toda a sua vida, sem nem ao menos saber. E agora o encontrara. Finalmente.

Anna percebeu meu olhar e entendeu que eu havia entendido.

– Tantas pessoas passam a vida sem conhecer isso, sabe? O amor. Eu sou eternamente grata aos céus que eu o tenha encontrado. Ele fazia minhas manhãs mais bonitas. Ele me acordava com beijos leves na testa e me amava com paixão antes do café da manhã. Ele me ligava para contar a menor das coisas boas ou chatas que aconteciam com ele e depois dizia que, na verdade, fora só para escutar minha voz que ele ligara. Esse era ele. Ele, em pouco tempo, se tornou indispensável. Ficar longe dele era um castigo o qual eu só agüentava por que sabia que o veria mais tarde. Pior era quando ele viajava a trabalho.  Quando ele abria a porta, eu praticamente o derrubava com meus abraços e beijos antes que ele tivesse a chance de dizer qualquer coisa. Ele geralmente sorria e me apertava ao seu encontro – disse Anna, enquanto apertava as mãos juntas, os olhos brilhantes – e ficava cheirando o meu cabelo. Ele dizia que meu cabelo tinha o cheiro mais calmante e gostoso do mundo.

Minha menstruação atrasou. Um mês inteiro. – ela engasgou, e percebi que as lágrimas ameaçavam transbordar dos seus olhos – Eu fiz um teste de gravidez e deu positivo. Não havia contado nada a ele sobre a menstruação atrasada. Queria ter certeza de tudo antes de contar algo para ele. Chorei quando vi as duas listrinhas. De felicidade, mesmo. O bebê era um fruto de um amor abençoado. Não éramos casados, apenas morávamos juntos. Mas tudo em nós florescia e fortalecia. De forma que fui numa padaria e uma torta Floresta Negra – a predileta dele – e me preparei para contar tudo para ele quando ele chegasse em casa à noite. Ele havia viajado a trabalho e já fazia três dias que eles estava fora. Achei que seria a oportunidade perfeita. Não gostava da ideia de contar por telefone. Queria ver os olhos dele brilharem de felicidade quando eu contasse que a minha barriga carregava um bebê. O nosso bebê.

Anna fez uma pausa. As lágrimas caíam em torrentes e ela já não tentava mais disfarçar o quanto aquilo a machucava. Tentou enxugar o rosto, mas não conseguiu. Suas mãos tremiam. Ofereci um guardanapo que estava próximo, que ela aceitou, com uma “obrigada” baixo.

– Mas nunca saberei. Nunca vi os seus olhos brilharem com essa notícia. Por que naquele dia ele morreu. Num acidente de carro. Um caminhão. Ele não teve nenhuma chance. Já chegou morto aqui.

Anna chorava as lágrimas mais tristes e verdadeiras que eu já havia visto. Estava tão absorta na sua história que demorei para perceber que eu também estava chorando. Achei injusto. Achei que Anna não merecia aquilo, ele não merecia aquilo. Ninguém merecia aquilo. Por que apresentar o amor a alguém, para depois tirá-lo da pessoa? Que tipo de senso de humor esquisito é esse?

Anna pareceu ter escutado meus pensamentos, pois falou: – Passei muito tempo revoltada com a vida. Ficava me perguntando por que isso tinha acontecido. Por que Deus me apresentou ao amor da minha vida, se ele iria tirá-lo de mim alguns anos mais tarde, quando eu estivesse grávida, começando uma vida com ele? Que tipo de sacanagem era essa e o que eu fiz para merecer isso? Mas, bem. Alice foi crescendo dentro de mim. E eu fui entendendo que aquele amor não acabou. Deus precisava me mostrar o amor, por que eu não o conhecia. E ninguém deve morrer sem conhecer o amor. Mesmo que não seja um amor que dure a vida inteira. O amor sempre vale a pena. O tempo é apenas uma forma de dimensionar as coisas. Mas o amor, não. O amor não pode ser dimensionado. O amor não cabe nas nossas medidas terrenas. No nosso tempo de horas, minutos e segundos, talvez eu e ele não tenhamos vivido tanto tempo juntos. Mas, dentro de mim – ela pousou a mão no coração -, o nosso amor ainda vive. E continuará vivendo, enquanto minha alma existir.

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4 thoughts on “Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte VII.

  1. Para mim sempre fez sentido que essa parte do Amor tinha a ver com a Alice, mas ficava aquela dúvida de quando ela decidiu engravidar.
    E veio quando ela menos esperava. Assim como o amor.
    Meus olhos encheram de lágrimas quando vi que ela não conseguiu contar. Nunca teve a chance de sequer se despedir =/
    Adorei o final do conto. Foi bem inesperado.
    :***

  2. Pingback: Tweets that mention Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte VII. « maçãsverdes[dot]com -- Topsy.com

  3. Nossa, eu aguardava ansiosamente pela parte onde entraria o nascimento de Alice e a palavra amor, que eu já imagina estarem ligados, hahaha. Sério Amanda, arrasou. Amei essa história toda, e o final me deixou com os olhos mareados aqui, não chorei por bem pouco.
    Imaginei o desespero de se estar em casa esperando o amor da vida pra contar de uma gravidez e a pessoa morrer no caminho. Aliás, nem precisa estar esperando pra contar algo, estar simplesmente esperando alguém que você ama e a pessoa não chegar. Nem quero imaginar o tamanho dessa dor. Mas enfim, o conto foi maravilhoso!
    Beijos

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