Ela chegara.

E ela vem. Sorrateira. Estou muito calma, lendo um livro, sem sequer imaginar que ela está vindo, acabar com toda a graça que a vida vinha tendo. Ela esteve ocupada mês passado e só deu uma passadinha bem rápida. Pensei que teria sorte novamente esse mês e me livraria dessa visita altamente indesejável. Mas né? Um raio não caio duas vezes no mesmo lugar. Ou é o que dizem por aí.

Ela invade meu quarto. Eu me levanto da cama e olho na cara feia dela: – Quem você pensa que é para entrar assim, de qualquer jeito, no meu quarto? Ele é meu, escutou? MEU. E para entrar aqui, você tem que pedir MINHA permissão? Oras! – adiciono, tentando me impor no pequeno espaço que a parte de baixo do beliche me proporciona. Não dá certo e eu termino batendo a cabeça em uma das vigas de madeira.

Ela olha com desprezo pra mim: – Olhe só pra você. Tão fraca, tão infantil. É só eu chegar que já se descontrola toda – cobre levemente a boca para soltar um risinho debochado – Sentiu minha falta, querida? Queria me desculpar por não ter vindo direito aqui o mês passado. Estava meio ocupada, sabe? Com tantas pessoas para visitar por mês e…

– Eu não quero saber, tá? – interrompo, irritada, massageando meu cocoruto dolorido – Não faço a menor questão da sua visita. Na verdade, mês passado foi um mês muito feliz, sem a sua presença a me incomodar. Não tive que segurar meu ódio irracional, por que NÃO havia nenhum ódio irracional para segurar. Sabe? Você não pode simplesmente ME DEIXAR EM PAZ? Sabe, não só eu, mas todas as outras pobres visitadas suas tem problemas SUFICIENTES para lidar sem você para piorar tudo! – levanto a mão para gesticular e termino ralando os nós do dedos numa as vigas, onde uma farpa malfadada entra feliz. Grito de raiva e dor – PUTA QUE PARIU!

Ela continua fazendo gênero e colocando a mão na frente da boca para rir: – Você é realmente muito descontrolada, não? Acho que você não precisa nem de mim para ser infeliz, haha – complementa malignamente – Mas estou aqui, só pro caso de você não conseguir, sabe? Acho que uma ajudinha extra é sempre bem vinda, não é mesmo? Acho que eu sou sensacional. Mal acabei de chegar e você já se machucou duas vezes, está destilando ódio e falando palavrão – falou, orgulhosa – Sou mais poderosa do que imaginei!

O sangue ferve nas minhas veias. Detestava admitir, mas era verdade. Ela consegue fazer tanto estrago em mim em tão pouco tempo. Olhe para mim. Fazia apenas uns minutos que ela estava postada na minha frente, com aquela cara de CÍNICA dela, e eu já estava soltando fogo pelas ventas que nem aqueles dragões de desenho animado. Tentei me acalmar e não fazer o jogo dela. Respirei fundo e resolvi usar um argumento que eu odiava, mas que podia ser de ajuda: – Sabe, você sabe que não existe né? – dei um sorriso de lado, fazendo minha melhor cara de inteligente – Você é algo meramente psicológico. Você é uma desculpa minha para explodir – sorri, enquanto falava esse absurdo ridículo no qual eu nem longiquamente acreditava – Você não me torna má. Eu já sou assim – dei meu último sorriso cínico de lado – Não ache que tem tanta importância assim na minha vida.

Ela escutou tudo o que eu disse séria. Por um momento, eu achei que havia ganhado a batalha e ela iria embora e me deixaria em paz. Por um feliz momento, foi isso o que eu pensei, na minha boba mente iludida. Iludida por que, assim que terminei ela, que estava olhando para o meu piso de cerâmica simples, levantou o rosto com o seu sorrisinho escondido atrás da mão que tanto me irritava: – Você SABE que não é verdade nem MEIA palavra do que você me disse. Acha que eu não te conheço? Eu sei de cada um dos hormônios que neste momento correm dentro de você, fazendo ficar totalmente irritadiça. Eu sei de cada litro de água retida dentro de você fazendo você inchar como um balão – sendo que balão não ficam pesados – e seus seios ficarem tão doloridos que você não pode sequer fazer uma aula de jump em paz. EU SEI – ela disse, com um mexer de lábios que chegava até a ser remotamente sincero e preocupado – e não adianta você ficar repetindo esses argumentos falhos de quem nunca teve uma visita minha. Por que para essas pessoas eu posso até não existir, mas você NUNCA vai me convencer de que eu não existo. Por que você sabe que eu existo, meu amor.

Ela deu uma leve piscadela e se foi.

Irritada, recostei  nos travesseiros e voltei ao meu livro. Ou tentei voltar. Não conseguia me concentrar, a raiva corria dentro de mim como se ela sempre houvesse feito isso. Ela chegara.

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2 thoughts on “Ela chegara.

  1. Como eu falei com você no skype, a minha me tira do sério algumas vezes. É assim. Eu tenho um pico de irritação, depois eu choro. É um saco, haha. Mas o pior de tudo são os seios, com certeza. DÓI, mas DÓI, e ah, não gosto nem de pensar, hahaha.
    Mas o bom é que sabemos que passa!
    Beijos!

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