A mania de querer as coisas difíceis

Crônica que escrevi na aula de redação jornalística III – e que a professora elogiou, viva! /aquelasqueseamostra

Tá. Então faz, basicamente, uns cinco anos que tento voltar, sem muita sorte, aos meus amados 58 kg. Acho que desde que eu notei que não pesava mais isso. Se bem que, apesar da minha memória me lembrar de que eu era uma diliça naquela época, eu não me recordo de ser particularmente feliz no tempo em que eu pesava o já mencionado peso. Na verdade, lembro até de achar aquela minha barriguinha (QUE BARRIGA, MEU DEUS?!) um tanto quanto ridícula e também de pensar que se eu emagrecesse uns dois quilinhos eu ficaria muito mais bonita.

E eu me pergunto por que nunca consegui perder aqueles dois quilinhos. E por que eu nunca consegui levar as dietas a sério, apesar de gastar um bom dinheiro em comidas caras e cenourinhas anãs.

Creio que pela mesma razão de que nunca deixei de roer as unhas, ou de cutucar as espinhas ou mesmo de pedir R$20 de comida chinesa para ganhar o bendito do SUPER CALÓRICO rolinho Romeu e Julieta:  auto-sabotagem. E não digo que seja uma auto-sabotagem burra, daquelas “quero-sofrer-para-sempre-me-deixe-em-paz”. Essa leseira específica tem uma intenção definida: a de deixar algo por fazer. A de manter algum objetivo à vista, para quando você estiver precisando de um.

Viajado isso, né? Acontece que eu acabei de comer o meu chocolate pós-almoço devidamente acompanhado do punhado de culpa que me cabe no latifúndio e não estou raciocinando muito bem. Mas eu vou tentar explicar.

Sabe aqueles momentos horríveis em que seu namoro acabou e você tá na merda, sem nada pra fazer? Daí, o que você pensa, depois de charfundar na lama da autocomiseração? Ao som de “Novo Namorado” (aquela música que tem a sacada GENIAL de que “o mundo gira, o mundo é uma bola”), você promete a si mesma/o fazer todas as coisas que sempre quis fazer e que nunca fez, tais como: Entrar na academia e MALHAR (não apenas passear); Parar de roer as unhas até o toco; Conseguir fazer uma dieta passar da segunda-feira etc.

Agora me digam o que é que a gente ia fazer se o namoro acabasse, você levasse bomba no vestibular ou qualquer dessas porcarias que acontecem o tempo todo nas nossas vidas e não tivesse NADA PARA FAZER? Nenhum projeto, por minúsculo que fosse, que ocupasse seu tempo e tirasse sua cabeça do que quer que fosse que você quisesse esquecer?

Acredite em mim, haveria muito mais suicídios. I’m not kidding.

Então, ao invés de nos tornarmos amargos conosco mesmos por razões tão aleatórias como ser incapaz de comer as cenourinhas que compramos no Bompreço – e que custaram uma pequena fortuna – demos graças a Deus pelo nosso senso de auto-preservação, que nos mantém sempre perto das batatas noisettes e longe das alfaces crespas. Essa mania de querer as coisas mais difíceis – desde o benquerer por aquele carinha gatinho do colegial que NUNCA NA VIDA notou nada além dos óculos gigantes e as espinhas inflamadas em você, à encasquetar de prestar medicina no vestibular (graças a Deus nunca tive esse tipo de ideia, mas enfim né), NOS MANTEM VIVOS.  Eu diria que é até instinto de sobrevivência, mesmo.

Se não quiserem agradecer a Deus, agradeçam a mim por ter disponibilizado, para vocês, uma desculpa tão legal para continuarem sendo qualquer coisa que vocês quiserem ser, de gordinhos a desordeiros.

Aceito o pagamento dos meus serviços em sundaes sabor napolitano e bolinhos de queijo frito.

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17 thoughts on “A mania de querer as coisas difíceis

  1. Olha, isso me lembrou meu querido painho Freud e o famoso ganho secundário das doenças (que nesse caso são essas coisas que prometemos e nunca cumprimos). A gente reclama, mas não muda. E não muda exatamente porque existe algo de bom nessa porcaria toda (só resta saber o que é).

    Adorei o texto.
    Beijo!

  2. Gêmula, você é um gênio!

    Agora sempre que eu quiser procrastinar, apelarei para o supracitado senso de auto-preservação!
    Já experimentei uma vez essa sensação de vazio, de não ter nenhum objetivo para correr atrás (ok, tenho lá meus [insira um nº grande aqui] x 2kg que preciso perder, mas desencanei disso)… rapidinho isso evoluiu pra uma fase péssima que levou um tempo considerável para ser superada.
    Realmente, estabelecer metas mantem as pessoas sãs.[

    Seu texto me lembrou outra coisa que não tem muito a ver com o assunto, mas que é tb muito legal: o princípio da incompletude: para quando vc não termina aquele trabalho pq, sei lá, tinha outras coisas para fazer… apele para o princípio da incompletude! Tem uma professora lá da faculdade que aceita isso numa boa! hahaha

    beijos :***

  3. KKKKKKKKKK

    Eu adoro seus textos, eu simplesmente amo a forma que você escreve a dura realidade em forma de redação publicitária cômita.

    Eu penso como você, me sinto assim e concordo com o que falou…

    O mais engraçado é a forma que você finaliza: “Aceito o pagamento dos meus serviços em sundaes sabor napolitano e bolinhos de queijo frito”..

    Beijão

    Vahallam

  4. Ai, ficou muito legal mesmo! Engraçado, ontem tava bem felizona tb pq recebi um elogio de uma profª aí pensei: finalmente né! kkkk
    Mas temos que ter essas metas pra viver, mesmo. Sejam elas possíveis ou não. Vi em algum lugar que não lembro onde que se vc quer comprar um iate, sonhe com um navio. Sonhar muito pequeno não te faz sair do canto, por vezes.

  5. Muito bom, Amandinha!
    Sabia que quando eu queria fazer Medicina, o principal motivo era por que o curso era o mais difícil? E olha que um monte de gente me julgava quando eu dizia isso, mas já conheci muito vestibulando e médico que confessou que um dos principais motivos pela escolha do curso foi essa coisa do desafio. Acho que eu sou meio competitiva, porque basta me dizer que eu não consigo fazer uma coisa pra que eu enfie na cabeça que vou fazer DE QUALQUER JEITO. É algo meio infantil e até medíocre, mas faz o mundo girar.
    Beijos

  6. Ai mulher, por que é tão difícil, né? Tô aqui acariciando minhas banhas gigantescas enquanto devoro algo intitulado “chocovinhos” simplesmente porque tá chovendo. É, assim mesmo “ai, tá chovendo, o que eu faço? COMO.” Sabe, gente?

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