A era da sociopatia

so.ci.o.pa.ti.a. s. Transtorno de personalidade caracterizado pelo comportamento impulsivo do indivíduo afetado, desprezo por normas sociais e indiferença aos direitos e sentimentos dos outros.

Essa semana um dos meus professores prediletos deu um pití fenomenal em sala de aula. E não foi qualquer pití não. Foi um daqueles pitís que traumatizam uma classe por um bom tempo e fazem com que uma reputação fique manchada por um bom tempo. Resumidamente, fazem com que o professor fique conhecido como o porre por, praticamente, o resto de sua vida. Eu já conhecia o professor em questão e já sabia que ele era grosso, mas dava um desconto porque ele é extremamente inteligente. E esse ataque de loucura da parte dele me fez repensar algumas coisas. Perguntei-me o porquê de fazer isso. De dar tanta importância à inteligência dele e tão pouca à gentileza e à sua forma de tratar as pessoas. O que faz com que ser inteligente te dê, de-repente-não-mais-que-de-repente, permissão para tratar pessoas como se fossem lixo?

Com um pouco de observação a gente nota que esse é um comportamento relativamente comum, nos dias atuais. Ao que parece, qualidades como agudeza de pensamento, competência e capacidade de dizer a coisa certa na hora certa estão em um patamar acima de coisas como gentileza, sensibilidade ou bom humor. Sempre se fala bem de quem é inteligente, enquanto quem é gentil fica com um mero comentário do gênero “ah, ele/a é amor”. E morreu.

Não estou aqui tentando aclamar aquelas pessoas que são felizes 24h por dia e 7 dias por semana. Não, realmente irrita ter uma pessoa mostrando os dentes o tempo todo para você – principalmente se você não é dentista ou coisa que o valha. Ninguém é feliz o tempo todo. É fato. Temos nossos maus momentos. Mas é importante observar que os maus momentos são exatamente isso. MAUS. Não é nenhum motivo de felicitação ou orgulho tratar mal alguém de graça. Isso é, isso sim, coisa de quem ainda não evoluiu o suficiente.

Aponto, nesse momento, o dedo na minha própria cara também. É fato que vemos os nossos erros muito melhor nos outros do que em nós mesmos. Eu mesma sou altamente sem paciência e costumo lançar um judgemental look de vez em quando na direção de pessoas especialmente educadas e bem-humoradas. Mas isso não quer dizer que eu ache isso certo. E isso não quer dizer que eu não vá, hipocritamente, reclamar disso e esfregar na cara de vocês que sim, o que vocês fazem, meus amigos cerebralmente bem desenvolvidos, é feio. É errado. E é pura preguiça.

Sim. Preguiça mesmo. Porque ser simpático dá MUITO MAIS trabalho do que ser chato. É fato. Engolir aquela piada sem graça ou filtrar aquela grosseria que está na ponta da língua é, definitivamente, muito mais dolorido do que simplesmente mandar alguém à merda. O mundo caminha num ritmo tão acelerado e as pessoas estão querendo simplificar tudo, inclusive a forma de lidar com outros seres humanos.

Mas deixa eu dar uma dica pra vocês: NÃO TEM JEITO FÁCIL.

Não tem caminho curto. A porta é estreita e talvez você tenha que passar de lado, se estiver gordinha que nem eu. Seres humanos são, por si sós, complicados. E você deveria saber disso, já que é um ser humano – ao que tudo indica. E faz parte da sua vida viver em sociedade. E já que é pra viver em sociedade, que tal ser um pouco mais decente e tratar as pessoas de forma aceitável? Ser um pouco menos sociopata? Inteligência é, obviamente, uma coisa importante. Mas pensem comigo: se ser inteligente fosse tão difícil, não haveria tantos escritores maravilhosos e inventores brilhantes, correto? Esse é apenas um dom com o qual nascemos. Faz parte de nós. Já a gentileza é uma qualidade adquirida e, por assim ser, deveria ser, no mínimo, tão bem vista quanto a capacidade de resolver bem as palavras cruzadas ou apontar os sete erros de um desenho qualquer. Afinal, quantos Dalai Lamas você conhece?

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15 thoughts on “A era da sociopatia

  1. Sem querer ser chata – e já sendo, pra variar – é sempre bom observar que estamos num mundo onde somos tratados da mesma forma que tratamos, ou queremos tratar. Não adianta jogar a culpa na inteligência do professor, ou pedir pra todos virarem o Dalai Lama; fato é que as pessoas se tratam como lixo sozinhas, e esperam que todos vejam isso e façam o exato contrário – as tratem como diamantes.
    Não vou tecer um grande comentário filosófico aqui. Gostaria apenas de dizer isso. Antes de cobrarmos respeito, educação, gentileza, ética e etc, precisamos prestar atenção nos sinais contrários que emitimos. Não adianta cobrar gentileza do seu professor se você não sabe o nome do porteiro do prédio, ou sai sujando o piso que a faxineira acabou de limpar sem suar, ou ocupa assento preferencial no metrô e NÃO levanta quando chegam os donos dos assentos.

  2. concordo com vc. na nossa sociedade vc só precisa ser gentil ou educado, se vc não for bom o suficiente. se vc for bom em alguma coisa, seja ela o que for, vc recebe carta branca pra ser um imbecil ignorante. pense num super cabeleireiro renomado, num maqueador de atuação internacional, um artista do auge… um poço de estupidez. mas qdo começa o processo de falência, de decadência, voltam a humildade, a decência e doçura.

    impressionante!

  3. Estou ultimamente refletindo muito sobre o comportamento humano. Não que eu seja mister no assunto ou que fosse desprovida de atos falhos. Sou ignorante algumas vezes, mas logo me questiono por tal comportamento… Enfim, vejo que não é um problema isolado, pois, milhares de pessoas tornam-se arrogantes umas com as outras pelo simples fato de terem algo mais… A sociedade basicamente destruiu o que poderia gerar um bom convívio social e deixou o lugar para a arrogância. É muito fácil ver uma pessoa ‘ inteligente’ arrogante que faz desdem dos sentimentos e capacidades alheias, o irônico é que todos nós possuímos a mesma capacidade… Então tal motivo para ser esnobe nem faz muito sentido. Isso também acontece quando se trata de dinheiro, principalmente dinheiro. Deve ser alguma frustração coletiva que daqui a uns dois anos vai ter um nomezinho. kkk

  4. Amei o tema do seu post. Engraçado é que hoje na minha aula de Psicologia a professora tratou do assunto “Emoções/Processo de Comunicação”, e explicou como alguns sentimentos prejudicam a comunicação.
    O que acontece é que na nossa sociedade as pessoas simplesmente aceitam que a outra é um porre e não se interessa em saber se existe um problema por trás daquela atitude. Se agirmos da mesma forma com que somos tratadas a coisa só tende a virar uma bola de neve, porque quando você aponta o dedo para alguém, lembre-se que tem 3 apontados para você.
    Beijos, adoro seu blog.

  5. Amanda, que texto ótimo, parabéns!

    Tenho realmente medo dessa geração. Vejo, cada vez mais, a exaltação do mau humor e da babaquice. Gente sendo escrota pra gerar polêmica, atacando pra ganhar comentário. É o que mais tem. Ao mesmo tempo, existe algo de mórbido nas pessoas em querer ver a desgraça alheia, que só alimenta esse tipo de gente. E eu não entendo.

    Da mesma maneira que é muito mais difícil ser simpático, deixar a gente ser feliz é um exercício diário. Fica muito mais fácil se martirizar. E parece que o mundo gosta muito mais disso, infelizmente.

  6. Também costumo lançar um olhar a la “você está fazendo isso errado” pra quem é sempre toda sorrisos, tudo lindo, tudo tudo.
    Mas com certeza seria mais fácil se fossemos mais receptivos, se as qualidades de unissem…
    O problema é que vivemos em um mundo onde todo sofrimento e dor devem ser aniquilados instantaneamente. Ninguém mais pode sofrer. Todos tem que vivar a vida a la sorriso eterno.
    No fim todos vivem em um mundo de máscaras até que esta caia e todos explodam.

  7. Tenho que concordar contigo.

    A sociedade anda muito carrasca e egoísta. Cada um tem dado importância apenas aos seus desejos, anulando os desejos dos outros e tratando-os como menores, insignificantes. Se antes diziam que a solidão era o mal do século XX, no XXI acredito que seja o narcisismo. Ninguém quer mais saber como o outro está, quer apenas saber como está e fazer de TUDO para conseguir o que quer. Preços da modernidade, não da inteligência.

    Enfim, realmente não existem muitos Dalai Lamas por aí.

    Beijo!

  8. Estou tão feliz por alguém ter escrito um post assim.
    Ninguém acredita, mas eu sofro por ser bem humorada na maior parte do tempo e ser simpática na maioria das situações. Eu não chego a ser chata, rir de qualquer idiotice, não sou um Bob Esponja. Mas o que há de errado em querer estar bem?
    É muito difícil eu estar de “cara fechada”. Quando estou mal, só fico quieta, sei lá. Não julgando, mas realmente não entra na minha cabeça como as pessoas podem maltratar as pessoas, descontar seus problemas nos outros, enfim.
    E eu sofro por isso, porque as pessoas acham que eu sou falsa, que eu sou hipócrita, e eu também engulo muito sapo, chego a me omitir muitas vezes.
    Mas isso é parte de mim, não consigo mudar, e quer saber? Eu gosto do meu jeito, e tenho certeza que tem muita gente que gosta também.
    Amei amei, super bem escrito, parabéns.
    Beijo.

  9. Amanda, você tem plena razão no que diz.
    As pessoas precisam ser gentis umas com as outras, pois é o velho ditado de que “gentileza gera gentileza” e ofensa gera o quê então?
    Detesto as pessoas que cobram humildade da parte do outro e não se comprometem a ser humildes para com o próximo. Uma situação constrangedora aconteceu hoje cedo em meu trabalho. Bati boca com um estagiário que, imagine, não queria abrir a porta da empresa para que eu entrasse (e ainda queria ter razão com isso, justificando que seu horário é oito horas e que, antes disso, não trabalha). Precisa esse tipo de coisa?
    As pessoas, em nosso país, ainda não compreendem (ou não aceitam) o fato de que a educação é a base de todo e qualquer ser humano. E gentileza, meu povo, é o mínimo.
    Beijão, moça!

  10. Sabe, eu acho que as pessoas muito inteligentes, na sua maioria, são arrogantes.
    A arrogância é uma merda, com o perdão da palavra.
    Te faz pensar que tu é melhor do que os outros e nem é, sabe?
    Adorei teu post porque tenho observado muito isso na faculdade.
    Beijo! ❤

  11. Oi Amanda…
    é a primeira vez que visito aqui.. li alguns textos seus, gostei bastante..
    ta ficando cada vez mais complicado achar blogs gostosos de ler assim…..

    Mas então, com relação ao post.. acho q esse é um problema bem frequente em professores.. A acadêmia meche com o ego das pessoas, não é?
    hahaha.. complicado!

    parabéns pelo blog
    um beijo!

  12. Tenho asco de gente que maltrata e é mal educada, mesmo que seja inteligente, não consigo admirar gente assim. Confesso que sou fechadona, mas nunca jamais sou mal educada com os outros. Converso com as pessoas de igual pra igual, é comum me ver no ponto de ônibus falando do tempo com o mendigo – e eu odeio conversar na rua com quem não conheço- mas sou incapaz de ignorar.
    Mas já viu aquele filme “um dia de fúria”?, então.

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