O monstro

 A todo momento ela parecia brigar com um outro ser dentro dela. Um ser cheio de uma raiva preta e gosmenta, que nem aquela lama dos pântanos de desenho animado. Esse ser parecia não entender que ela estava no comando. “Deixe-me em paz, inferno”, pensava, enquanto travava lutas mentais contra aquele demônio dentro de si, que estava sempre a empurrando um pouco mais abaixo da montanha do bem-querer, diretinho para o vale da negatividade. Esperava que as pessoas não percebessem isso, mas parecia cada vez mais difícil domar esse monstro dentro dela. Quando menos esperava, ele aparecia, ardendo em chamas de ódio, despejando impropérios e palavras doloridas em quem estava mais próximo e machucando-a por consequência. Sim, por que ela se machucava com aquelas palavras que ela nem sabia como tinham saído de sua boca. Não tinha intenção de fazer mal a ninguém. Não era o que queria. No entanto, lá estava ela, mais uma vez, brigando com alguém querido por causa dessa idiotice sem fim que é ter algo de maligno dentro de si.

Ele estava emburrado, irritado e meio cheio de ser tratado tão agressivamente por qualquer razão. A amava, mas tudo tem limite e essa chateação já estava dando nos nervos fazia um tempo. Olhou para ela e se perguntou onde estava aquela menina doce pela qual se apaixonara. Talvez ela fosse um pouco azeda na época, mas o que acontecera para tudo desandar dessa forma? A menina que amava não se irritava por tudo com essa facilidade. Not a chance.

“Desculpe”, começou ela. Ele levantou os olhos dos cadarços que esteve encarando por severos minutos, como se tivesse pesando as consequências de dar um uso diferente para eles que não o de manter seus pés dentro do tênis. Será que amordaçá-la seria mesmo tão ruim? Levantou uma sobrancelha. “E pelo quê, exatamente?”, perguntou. Não acreditava muito nessas desculpas e ela não poderia culpá-lo. Tinha sido assim nos últimos dias e estava cada vez mais difícil aturar esses ataques bobos dela. Ela desviou o olhar, chateada pelo cinismo que vazou das palavras dele. De qualquer forma, decidiu ser sincera. Se ele estava assim, a culpa era apenas dela, que não conseguia controlar-se. “Por estar sendo assim, horrível. Não sou eu, essa. Você me conhece. Eu não sei o que está acontecendo comigo”, mentiu, achando a situação toda uma tremenda injustiça.

Por que, de todas as pessoas, tinha que ser ela a lidar com esse monstro maldito? Ela estava perdendo o controle, não conseguia se impor. O rancor tomava conta dela e não a deixava respirar, por mais que ela tentasse enfiá-lo num lugar bem escondido e obscuro dentro do seu coração. Mas não adiantava. Fosse qual fosse o recipiente,  o rancor vazava. Vazava e envenenava o seu interior. Bem que sempre disseram que não era bom guardar rancor de ninguém. Ela deveria ter escutado. Agora esse câncer se criara dentro dela, sua células intoxicadas de raiva e ela não conseguia resolver esse problema sozinha. Mas também não se sentia confortável para falar sobre ele com ninguém. O que pensariam dela? Tinha ela razões suficiente para viver tão p da vida o tempo todo? Sabia que não. Havia pessoas em situação muito mais desesperadora que a dela e nem por isso elas resolveram que ódio era uma boa ideia. Tinha que se ser muito burro e atrasado na escala espiritual para escolher esse tipo de opção. Qualidades essas que ela estava começando a acreditar que tinha.

A voz dele a acordou dos devaneios. “Fiz alguma coisa a você? Digo, alguma coisa que realmente tenha te machucado?”, perguntou ele, preocupado. Aquela lá realmente não era ela. Ele não conseguia reconhecer. E se não era ela, o que é que aquele outro ser estava fazendo ali. Pegou na mão dela e a alisou levemente com seus dedos longos. “Sabe”, falou olhando pros seus olhos, “você realmente pode contar comigo. Eu te amo e eu não estou brincando quando digo isso, você sabe”, afirmou, sério. Ela perscrutou seus olhos, procurando provas de que poderia confiar nele. “Não sei se posso dividir esse peso com você”, disse tristemente, olhando por cima do ombro dele. Não queria que a tomasse por louca. Não ele. Não alguém que ela amava tanto. Entretanto, também achava injusto machucá-lo de graça e nem ao menos dar-lhe uma explicação.

“E por que isso? Não estive eu sempre ao teu lado?”, perguntou ele, sem entender. Ela observou-o, triste, se sentindo o ser mais desprezível da face da terra. “Estou me corroendo por dentro, meu amor. Eu estou me matando. Matando o que há de bom em mim”, murmurou, uma lágrima caindo do seu olho esquerdo. O coração dela batia devagar, como que esperando pelas próximas palavras de um romance que já conhecia. Ele se assustou. “O que você quer dizer com isso?”, inquiriu, segurando as duas mãos dela, obrigando-a a olhá-lo de frente. Ela suspirou, o pesar derretido em seus olhos negros e úmidos. “Eu estou corroída pela rancor, meu amor. Não de você, mas de todas as pessoas que já me fizeram algum mal nessa vida”. Outra lágrima caiu, dessa vez correndo pela sua bochecha em direção à sua boca. Continuou. “Não pensei que isso fosse acontecer e sempre me orgulhei de ser uma pessoa que não esquece o que as outras fazem com ela. Sempre achei que era coisa de mosca morta, de gente sem personalidade, passar por cima do que acontece e seguir em frente”. Tomou fôlego. “Mas”, disse, olhando diretamente para os olhos bondosos dele, “descobri que não é bem assim. Passar por cima é necessário. Esquecer é necessário. Do contrário você termina que nem eu, com um monstro de ódio, uma bola gosmenta de rancor dentro de si, destruindo o que tem de bom dentro de você e colocando raiva, intolerância e irritação no lugar”, enumerou. “E agora receio ser tarde demais para me conseguir de volta. Desaprendi a ser boa. Só tenho sentimentos ruins dentro de mim. Não sei”, e precisou parar para tomar fôlego e completar a frase,”se te mereço mais. Certamente, não devo mais te merecer. Não sendo a pessoa odiosa que venho sendo”, admitiu, olhando para o chão e engolindo lágrimas salgadas de decepção consigo mesma.

Ele enxugou suas lágrimas e levantou o seu rosto com delicadeza. Não era bem aquilo que esperava, mas estava disposto a tomar como sua a tarefa. O queixo dela tremia, os olhos estavam vermelhos e ela toda parecia vibrar numa aura de tristeza e arrependimento. Ele não a deixaria desamparada. “Não podemos mudar o passado”, começou ele, acariciando a bochecha rosada dela, “mas podemos fazer um futuro diferente. Nunca é tarde e, se não houvesse nada de bom em você, você não estaria tão triste assim”, argumentou, procurando os olhos dela. “Acredite em mim, enquanto houver um pedacinho de bondade em você, há esperança”.

Nesse momento, o pedacinho de bondade nela, o amor que sentia por ele, brilhou dentro do seu peito, e ela se sentiu mais leve. Tavez ainda houvesse uma forma. Com ele ao seu lado. O peso é difícil de carregar, mas dividido por dois é certamente mais tolerável. Sorriu. “Talvez. Mas como farei para me livrar de todo esse mal que habita em mim?”, perguntou, preocupada. “Como farei para ser uma pessoa melhor, quando tenho vontade de bater em qualquer um que pisa no meu pé ou me contraria de alguma forma?”. Ele sorriu. “Paciência, amor. Bondade é uma consequência, não um bem imediato. Você terá que plantar o bem onde semeou a raiva e o rancor”, falou, apontando pro coração dela, “e terá que ter paciência e cuidado com esse sentimento, para que ele cresça forte. Uma vez que ele crescer, ninguém poderá tirá-lo de você”. Sorriu de novo. “E você deve parar de alimentar raiva. Não traz nada de bom”. Ela o abraçou, forte, como que fechando o acordo que eles tinham se proposto. O coração dela já batia num ritmo diferente. Uma luz já raiava dentro de si, iluminando seu olhar e fazendo-a lembrar um pouco mais do que ela era antes. Quem disse que o primeiro passo não era importante? Decidir mudar pra melhor é algo que pouca gente se propõe a fazer e lá estava ela, no começo do que acreditava ser uma longa estrada para uma vida satisfatória. Não seria fácil, decerto. Mas seria mais gratificante do que guardar toda aquela mágoa que ela havia armazenado dentro de si. Estava na hora de limpar os armários e lavar o seu interior com água, sabão e cloro.

“Ah, então você vai se transformar numa bunda-mole, é isso mesmo, minha querida?”, indagou a sua besta, debochada, impregnando o ar com seu veneno. Ela lançou um olhar risonho para o monstro e respondeu. “Não, meu caro. Vou me tornar uma pessoa feliz”. E jogou água, sabão e cloro. A faxina havia começado.

Perdoem o escrito bobo, me deu vontade de escrevê-lo e foi isso que eu fiz. (:

Anúncios

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte VII.

Gostaria de agradecer a todos você que acompanharam essa história até agora pela paciência. Depois de mais de uma ano do primeiro post, estou finalizando esse conto. Espero que vocês gostem do final.

Ao término da última letra, a protagonista/autora/intérprete da história recostou na poltrona e baixou o rosto. A franja longa caiu no rosto e ela parecia insondável. Caiu um longo silêncio entre nós e comecei a ficar nervosa. Não gosto de silêncios abruptos. Ainda mais vindos da pessoa que monopolizara a conversação até então. Estava me preparando para perguntar se estava tudo bem quando Anna ergueu os olhos e vi que eles estavam brilhantes. Brilhantes demais. Senti cada partícula dela rangendo e sofrendo para evitar uma propulsão de lágrimas. Ela estava sofrendo.

– Anna, – comecei – você não precisa terminar a história, se isso estiver doendo. Doeu muito em mim falar aquilo. Se doeu! Minha curiosidade gritava dentro de mim e queria por que queria saber o final da história. Saber sobre o amor. Eu sentia que aquele pedaço era o mais importante. Sem ele a história seria apenas… eu não sei. Vazia, apesar de tantos detalhes inseridos nela. Mais do que incompleta – sem sentido. Eu ouvira todas as façanhas sexuais de Anna, mas estava com os olhos na tela, esperando que algo a mais acontecesse. Algo que fizesse tudo aquilo valer a pena. Não vou mentir, sou uma romântica. O sexo pelo sexo, como a Anna comentou, não faz minha cabeça. E eu esperava que o amor acontecesse, como ela me falou no nosso primeiro encontro. O amor que nos envelhece. Nos deixa mais sábios.

Anna respirou fundo antes de começar. – Não – disse ela – eu preciso terminar a história. Preciso. É o final, não é? Me dói muito esse final. Sim, me dói tanto que estou lutando com as lágrimas uma guerra perdida – uma lágrima escorregou das bordas dos seus olhos, seguida por outra –, e pensando se realmente vale a pena tirar isso de dentro de mim a custo de tantas dor. Mas eu sei que eu preciso. Eu não posso simplesmente te contar quase toda a história e te esconder a parte que mais me marcou. E não falo da tatuagem. Sim, o amor está marcado na minha nuca. Mas, mais do que isso: meu coração foi marcado. Cada substância minúscula do meu corpo segue a rota dele. Eu simplesmente não sou mais aquela Anna que esteve presente durante todos os capítulos anteriores. E você precisa saber por que.

Eu me sentia absurdamente maligna por deixar que ela continuasse com a narrativa. Mas, ao mesmo tempo, via que aquela dor era uma dor constante que apenas transbordara. Não ousei respirar. Anna limpou os olhos com as costas das mãos, se ajeitou na poltrona e prosseguiu.

– Eu já havia completado a minha tatuagem, no meu ver. Então, de certa forma, todos os homens pareciam desinteressantes. Eu não conseguia firmar laços com ele, mesmo que eles me proporcionassem orgasmos múltiplos – como foi vários casos. Não conseguia, quando eu não tinha nenhum objetivo com eles, além de simplesmente fazer sexo. Ora, para fazer sexo eu não precisava namorar ninguém, precisava? Claro que não. Então segui a minha vida e ela estava daquele jeito que parecia piloto automático. Não era ruim, mas…não era bom. Então ele apareceu. Eu não vou nomeá-lo. Claro que ele tem um nome, mas dizê-lo ainda me dói. Além do quê, o nome dele não é importante. O nome não consegue passar o que ele foi e ainda é para mim. O nome é só um nome. Não faz diferença.

Numa noite de sexta, eu havia parado numa loja de conveniência, para comprar umas cervejas antes de ir pra casa. Tinha sido um dia difícil e eu planejava bebê-las assistindo alguma coisa e depois dormir. A minha vida estava um tédio de morrer, apesar d’eu sair quase toda noite. Mas naquela noite eu estava cansada. Cansada de tudo em particular e ia me encolher na minha caverna particular, até a vontade de viver voltar. Estacionei o carro e saí, checando as portas e ligando o alarme. Entrei na loja, que tinha um daqueles sininhos que avisam quando os clientes entram. A caixa olhou pra mim com desdém, olhar que correspondi. Tanto fazia, eu só queria comprar minhas cervejas e ir embora. Fui diretamente ao freezer/geladeira que guardava as long neck  e fiquei em dúvida entre uma marca e outra de cerveja. A mais forte. Peguei duas, então mudei de ideia e quando voltava para pegar mais duas, ele apareceu. Eu estava inclinada pegando as cervejas, quando ele falou: – Tem certeza? Simplesmente isso. Tem certeza? Certeza era uma coisa que eu não tinha havia tempo na minha vida. Levantei, abraçando as quatro cervejas, que molhavam minha camiseta de algodão e sorri educadamente, me esforçando para ser sociável: – Ahnn, sim. Tenho sim – respondi, enquanto me dirigia para o caixa. Ele deu a volta em mim numa rapidez que não me permitiu fazer nada senão parar enquanto ele se postava na minha frente. – O quê? – perguntei, confusa. – Você não tem certeza. Não faça – falou ele, os olhos cinza brilhando. Matutei na minha cabeça que aquilo era muito estranho. Muito. A coisa mais estranha que havia acontecido comigo em semanas, meses ou até anos. Levantei uma sobrancelha: – Preciso fazer alguma coisa, é sexta à noite. Beber, sair. É o que as pessoas fazem sexta à noite. Eu não vou sair, então vim comprar essas cervejas. Não sou nenhuma alcoólatra, não se preocupe – me justifiquei, sem saber bem o porquê. Ele era bonito de um jeito que não chamava atenção. Era difícil de explicar. Ainda é.  Ele era bonito, mas era uma beleza que dependia da sua boa vontade de vê-la. Os olhos cinza eram ativos e bondosos e o cabelo castanho era ondulado e alguns fios sempre caíam em cima da sobrancelha. O sorriso era fácil e leve. Um sorriso que ele me dirigiu, ao me responder: – Beber? Sozinha. Parece solitário. Parece chato. E começou a soltar as garrafas do meu abraço. Eu ainda não acreditava que estava tendo essa conversação numa loja de conveniência com um desconhecido de sorriso bonito. Ele estava tentando mudar meus planos, mas quem era ele? Eu nunca o vi. Não o conheço.

– Desculpe – continuei, sem real intenção de me desculpar, enquanto segurava a última garrafa de cerveja –, eu não o conheço. Nunca o vi. – adicionei com um tom que indicava que o meu argumento tinha uma lógica indiscutível – Por que está interessado? Por que não me deixa, simplesmente, comprar minhas cervejas em paz? – perguntei, levantando a sobrancelha. Ele sorriu novamente, um sorriso que, inadvertidamente, o faria ganhar todas as discussões nos anos seguintes: – Ah, essa é fácil! – o sorriso abriu mais – Achei que você era a perfeita parceira para uma partida banco imobiliário. De todas as respostas possíveis, essa. Fiquei boquiaberta, olhando para ele como se ele fosse louco. – Olha, sério. Qual foi? Você quer que eu jogue banco imobiliário com você? Quantos anos você tem? 5? – me irritei, enquanto tentava passar por ele para pagar a cerveja. A caixa ignorava completamente a cena, absorvida por uma, mais tarde eu descobriria, unha lascada. Ele ficou subitamente sério e disse: – Parece, então, que uma criança de 5 anos consegue se divertir muito mais do que você, não é? Por que beber sozinha não é uma opção muito inteligente – adicionou. Levantei o rosto. Olhei-o nos olhos. Quem era aquele maldito desconhecido que ousava dizer todas aquelas verdades – sim, eram verdades, eu sabia – na minha cara? Sem a menor preliminar? Eu não sabia e também não sabia se queria descobrir. Talvez banco imobiliário fosse um codinome para sexo selvagem e eu teria que passar mais uma noite fazendo posições psicóticas e mais uma vida sentindo um vazio que eu não sabia o que era, mas que era o meu maior companheiro no momento. Não que eu gostasse dessa companhia, mas não via como me livrar dela. Era como aqueles atendentes de telemarketing, que ligam pra sua casa e nunca desligam, fazendo você se arrepender pra toda a vida de ter atendido ao telefone. Ele sorriu aquele sorriso que ninguém jamais soube sorrir ante minha cara pensativa e disse: – Venha! Eu realmente gostaria que você fosse. Eu olhei pra ele. Eu queria ir. Eu queria que aquilo fosse como ar puro, depois de uma temporada de monóxido de carbono na cara. Mas, quais eram as chances? Aquilo não era normal, era? – Você não sabe quem eu sou – apontei, com um sorrisinho cínico no canto da boca. Ele devolveu o sorriso cínico: – Ah, eu te conheço. Conheço sim. – Ah, sério? – perguntei, cruzando os braços, ainda segurando a cerveja – E quem eu sou? Seus olhos inteligentes me fitaram: – Você é Anna. E tem belos olhos verdes.

Desisti e o segui, movida pelo choque dele saber meu nome.

Só depois me lembrei que estava com o uniforme da empresa, no qual tinha, obviamente, meu nome bordado.

Um sorriso leve dançava nos lábios de Anna. O amor intrínseco naquelas palavras era tão óbvio que eu soube que ele, seja qual fosse o seu nome, era o amor inteiro da sua tatuagem. Da sua vida. Provavelmente da sua existência. Eu soube que aquela noite foi, realmente, banco imobiliário. Soube que eles ganharam como dupla e perderam um contra o outro. Soube que houveram tantas partidas que ela começou a perceber que o fato deles funcionarem tão bem juntos e tão mal separados não era mera coincidência. Que o fato do sorriso dele aparecer na sua cabeça o dia inteiro a alegrava e o de que ela não passava mais sextas – nem segundas, terças, quartas ou qualquer outro dia da semana – em bares ou boates, procurando preencher um vazio, também indicavam que algo havia mudado. Ela soubera o que era esse vazio. Era ele. Ele que ela procurava toda a sua vida, sem nem ao menos saber. E agora o encontrara. Finalmente.

Anna percebeu meu olhar e entendeu que eu havia entendido.

– Tantas pessoas passam a vida sem conhecer isso, sabe? O amor. Eu sou eternamente grata aos céus que eu o tenha encontrado. Ele fazia minhas manhãs mais bonitas. Ele me acordava com beijos leves na testa e me amava com paixão antes do café da manhã. Ele me ligava para contar a menor das coisas boas ou chatas que aconteciam com ele e depois dizia que, na verdade, fora só para escutar minha voz que ele ligara. Esse era ele. Ele, em pouco tempo, se tornou indispensável. Ficar longe dele era um castigo o qual eu só agüentava por que sabia que o veria mais tarde. Pior era quando ele viajava a trabalho.  Quando ele abria a porta, eu praticamente o derrubava com meus abraços e beijos antes que ele tivesse a chance de dizer qualquer coisa. Ele geralmente sorria e me apertava ao seu encontro – disse Anna, enquanto apertava as mãos juntas, os olhos brilhantes – e ficava cheirando o meu cabelo. Ele dizia que meu cabelo tinha o cheiro mais calmante e gostoso do mundo.

Minha menstruação atrasou. Um mês inteiro. – ela engasgou, e percebi que as lágrimas ameaçavam transbordar dos seus olhos – Eu fiz um teste de gravidez e deu positivo. Não havia contado nada a ele sobre a menstruação atrasada. Queria ter certeza de tudo antes de contar algo para ele. Chorei quando vi as duas listrinhas. De felicidade, mesmo. O bebê era um fruto de um amor abençoado. Não éramos casados, apenas morávamos juntos. Mas tudo em nós florescia e fortalecia. De forma que fui numa padaria e uma torta Floresta Negra – a predileta dele – e me preparei para contar tudo para ele quando ele chegasse em casa à noite. Ele havia viajado a trabalho e já fazia três dias que eles estava fora. Achei que seria a oportunidade perfeita. Não gostava da ideia de contar por telefone. Queria ver os olhos dele brilharem de felicidade quando eu contasse que a minha barriga carregava um bebê. O nosso bebê.

Anna fez uma pausa. As lágrimas caíam em torrentes e ela já não tentava mais disfarçar o quanto aquilo a machucava. Tentou enxugar o rosto, mas não conseguiu. Suas mãos tremiam. Ofereci um guardanapo que estava próximo, que ela aceitou, com uma “obrigada” baixo.

– Mas nunca saberei. Nunca vi os seus olhos brilharem com essa notícia. Por que naquele dia ele morreu. Num acidente de carro. Um caminhão. Ele não teve nenhuma chance. Já chegou morto aqui.

Anna chorava as lágrimas mais tristes e verdadeiras que eu já havia visto. Estava tão absorta na sua história que demorei para perceber que eu também estava chorando. Achei injusto. Achei que Anna não merecia aquilo, ele não merecia aquilo. Ninguém merecia aquilo. Por que apresentar o amor a alguém, para depois tirá-lo da pessoa? Que tipo de senso de humor esquisito é esse?

Anna pareceu ter escutado meus pensamentos, pois falou: – Passei muito tempo revoltada com a vida. Ficava me perguntando por que isso tinha acontecido. Por que Deus me apresentou ao amor da minha vida, se ele iria tirá-lo de mim alguns anos mais tarde, quando eu estivesse grávida, começando uma vida com ele? Que tipo de sacanagem era essa e o que eu fiz para merecer isso? Mas, bem. Alice foi crescendo dentro de mim. E eu fui entendendo que aquele amor não acabou. Deus precisava me mostrar o amor, por que eu não o conhecia. E ninguém deve morrer sem conhecer o amor. Mesmo que não seja um amor que dure a vida inteira. O amor sempre vale a pena. O tempo é apenas uma forma de dimensionar as coisas. Mas o amor, não. O amor não pode ser dimensionado. O amor não cabe nas nossas medidas terrenas. No nosso tempo de horas, minutos e segundos, talvez eu e ele não tenhamos vivido tanto tempo juntos. Mas, dentro de mim – ela pousou a mão no coração -, o nosso amor ainda vive. E continuará vivendo, enquanto minha alma existir.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte VI

Demorei para dormir nessa noite. Em parte por que passei um tempo considerável anotando tudo o que pude lembrar da narrativa de Anna. Mas a minha ansiedade pelo desfecho da história também exercia um forte efeito insone em mim. De forma que acordei, às 9 da manhã totalmente desorientada, com fortes batidas na minha porta e o que parecia ser uma voz infantil pedindo para abrí-la. Sentei na cama, coloquei a cabeça entre as mãos e amaldiçoei as crianças do condomínio de casas onde moro. Será que ninguém pode dormir em paz, principalmente depois de ter passado a maior parte da noite acordada?! É isso, pensei. Vou levantar e dar uma boa bronca no pivete que estiver batendo na minha porta à essa hora da manhã! Por que isso não é coisa que se faça, pensei, levantando impelida pelo puro e profundo sentimento de injustiça. Claro que as batidas cada vez mais fortes na porta também tiveram um pouco de peso na minha pressa em atender à porta.

Qual não é minha surpresa, ao abrir a porta pronta para passar um sermão num pivetinho constrangido e com a boca suja de biscoito, quando me deparo com a elétrica e empolgada Alice, segurando uma boneca de pano numa mão e a mão de Anna na outra.
– Oi! – cumprimentou Alice, empolgada, soltando a mão de Anna e emburacando sem cerimônia, através de um pequeno espaço ao lado das minhas pernas, na minha casa. Observei-a entrar, sem reação e ainda chocada com a disposição da pequena, àquela hora da manhã.

– Olá – respondi, mais por educação do que por ter alguém para escutar. Anna sorriu sem jeito: – Fomos para o parque, mas você não estava lá. Então resolvemos te procurar aqui – justificou-se, colocando um pedaço de franja meio longo demais para trás da orelha. – Tudo bem – falei, abrindo caminho para ela entrar na sala – Seja bem vinda. E não repare a bagunça – sorri. Pensei em perguntar como ela havia achado minha casa, quando eu, particularmente, não fazia a remota ideia de onde ela morava. Mas, realmente, não me parecia primordial fazer esse tipo de pergunta quando eu tinha uma criança de alta tensão perdida dentro da minha casa. Anna sorriu timidamente e entrou na minha casa. Olhou para a minha sala, meus móveis de madeira, minhas poltronas e meu sofá confortável e sentenciou: – Eu gosto! Poderíamos terminar a história aqui, não? – falou, sentando numa das poltronas e batendo numa almofada, para amaciá-la. Eu realmente não estava num bom momento para tomar decisões e disse apenas: – Claro. Sem problemas. Você podia só, er, chamar… – balbuciei, antes de ser interrompida pela própria Alice, que segurava meu gato, o Rodolfo, com as duas mãos, meio que mantendo-o no alto, apesar dos miados agoniados dele. – Olha o que eu achei, mamãe! – falou Alice, aparentemente muito feliz com a sua nova descoberta – ele não é lindo? – sorriu, enquanto abraçava um Rodolfo muito estressado.Achei que era demais para lidar quando se acabou de acordar e simplesmente disse, enquanto caminhava em direção ao banheiro: – Fiquem à vontade. Vou tomar banho e já volto. Rodolfo provavelmente nunca me perdoará. Mas todos temos nossas limitações.

Depois de uma chuveirada revigorante, me sentia mais viva e um pouco culpada pela fria recepção que havia dado à Anna e à Alice. Mas, bem. Quais eram as chances daquelas duas saberem onde eu moro, certo? Eu não tive qualquer preparação psicológica e simplesmente aquilo que parecia um sonho esquisito que acontecia toda vez que eu ia pro parque, se materializou em carne, osso e realidade na frente da minha porta. Um pouco de choque da minha parte deve ser perdoado. De qualquer forma, fui na cozinha, fiz um pouco de café, coloquei em duas canecas e me dirigi à sala, onde Anna estava sentada ereta na minha poltrona florida, com as duas mãos pousadas nos joelhos, encarando com bastante vontade a parede.

– Anna? – falei, oferecendo a caneca de café. Ela sobressaltou-se e pareceu aliviada ao ver que era eu que falava: – Oh! Obrigada! – falou, segurando a caneca com uma mão, enquanto a outra pousava entre seus seios – Você me assustou! Sorri e me desculpei, enquanto sentava na outra poltrona. – Onde está Alice? – perguntei, preocupada (com Rodolfo, na verdade). Anna tomou um gole do café com aparente prazer. Baixou a caneca e pareceu relaxar. – Não sei. Está em algum lugar com seu gato – falou, movendo levemente a mão acima da cabeça, como quem afasta um mosquito – Então, vamos terminar com isso? Com a história, digo. – falou, ao ver meu olhar perdido. Ah, sim. A história. A história. Claro. Claro. Eu não sabia o que esperar daquele ser que se materializou na minha sala de estar. Mas ela queria terminar de contar sua história. Acenei que sim com a cabeça e me recostei mais confortavelmente na poltrona.

– Bem. O que acontece é que depois da chatice que o Zeca foi – parei no Zeca né? – eu precisava de alguma emoção. PRECISAVA. E foi por isso que me envolvi com Eric. Por que não vejo outra razão pela qual possa ter me empolgado para tatuar um E que significaria ele na minha nuca. Se bem que dava pra entender por que eu queria transar com ele. Ele era muito gostoso. Não me olhe assim, com esse olhar chocado. Ele era. E ele nem malhava. Mas passava a noite dançando em boates gays badaladas como gogo-boy e os dias livres ele geralmente gastava surfando – logo dá para perceber por que ele era tão gostoso. Ele era bronzeado, uns ombros enormes e braços tão fortes que poderiam matar alguém sufocado, provavelmente. Sabe como é, aquele tipo gogo-boy. Conheci-o numa boate gay, claro. Não sou gay. Só fui lá por diversão mesmo. Alguns amigos iam e o DJ da boate era realmente bom – isso sem falar no bar. Então estou lá, sentada numa daquelas banquetas, mexendo o meu drinque, quando escuto uma barulheira de gritos próxima. Olhei para o lado. Era ele. De cueca, sunga ou algo assim. Dançando daquele jeito estranho dos gogo-boys em cima do balcão. Soube, ali mesmo, que pegaria ele. Ele teria que ser meu. Ele teria que deixar a sua marca em mim. Subi no balcão com meu drinque e comecei a dançar com ele, encoxando-o. Ele sorriu pra mim enquanto uma gota de suor escorria da sua testa. Quis lambê-la, mas apenas sorri. Sentia um calor enorme, mas estava bem mais relacionado ao desejo do que à temperatura do lugar em si. – Esse drinque parece gostoso – falou ele, maliciosamente, no meu ouvido. Sorri e sussurrei de volta: – Sex on the beach.

Claro que aquela noite foi ótima. Simplesmente sequestrei-o – ou fui sequestrada, não sei bem ao certo – para o banheiro feminino, que naquela boate não era muito freqüentado. Ou pelo menos era o que eu achava. Ele já tinha baixado a parte de cima do meu vestido curto e justo e levantado a parte de baixo e eu estava pronta pra ele, quando ouvimos um barulho de gente entrando no banheiro. Olhei pra ele, sorrindo. Não sei se foram os drinques que eu tomei ou se eu realmente estava louca de desejo mesmo. Só sei que segurei sua cabeça, puxei-a para perto da minha boca, mordi seu lóbulo e sussurrei: Me come. A gente diz todo tipo de coisa na hora do sexo, não é mesmo? Principalmente quando você está fazendo sexo, não amor propriamente dito. Num banheiro. Feminino. Com alguém do lado de fora que provavelmente está escutando o que você está falando/fazendo. Pois é, a questão é que ele, Eric, estava pouco se lixando para as regras também. De forma que nos movemos, em ritmo forte, dentro daquele boxzinho mínimo, gemendo, mordendo, arranhando, puxando nossos cabelos no que parecia uma dança tribal complicada e deliciosa. Lembro que foi um orgasmo fenomenal. Lembro também de ouvir pessoas comentando e rindo do lado de fora. Mas não tinha nenhuma vergonha. Todos, certamente, queriam estar no meu lugar, agarrando aquele gostoso e tendo um orgasmo de dar câimbra nos dedos dos pés.

Todo o meu breve relacionamento com Eric foi assim. Foram dois meses de orgasmos fenomenais, sexo escondido em lugares proibidos – banheiros eram os nossos prediletos. Públicos, de restaurante e até aquele banheiro família do shopping. Ele era lindo. Era simpático. Mas fora isso, não tinha muito o que ele pudesse adicionar na minha vida. Quer dizer, orgasmos fenomenais certamente era um ponto a favor dele. Mas, entre um orgasmo e outro eu queria conversar. Dividir vida. E acho que isso, ele não conseguia fazer. Por ser um gogo-boy, ele parecia ter se acostumado há muito a não contar muito sobre a vida dele. Todo o tempo que passamos juntos, eu nunca conheci um amigo dele e muito menos qualquer familiar. Ele nunca me chamara pro seu apartamento e eu nunca falei nada para ele nesse sentindo. Em parte por que eu sabia que fazê-lo se envolver comigo só o faria sofrer. Por que ainda faltava uma letra e eu ia completar aquela tatuagem não importasse o que acontecesse. Então o tempo que passamos juntos foi como o SPA do sexo. E quando decidi, depois de uma noite de sexo extenuante e delicioso, que para mim era suficiente, apenas falei: “Acho que não devemos mais no ver, Eric”. Ele olhou pra mim, se levantou da cama, me abraçou com aquele seu corpo definidamente perfeito, apoiou suas mãos nas minhas nádegas e sussurrou no meu ouvido: “O sexo foi ótimo, não foi?”. Concordei, dando um beijo no seu pescoço e apertando suas nádegas: – Sim, foi. – Então – ele falou, enquanto acariciava minhas costas com suas mãos enormes e mordiscava minha orelha – deveríamos fazer mais uma vez, antes de nos despedir.

Claro que eu não ia discordar.

Tatuei seu E na minha nuca no dia seguinte. Para sentir menos dor, pensei nas nossas noites juntos. Não sentir dor nenhuma, mas acho que o tatuador pensou que eu estava afim dele.

Anna abaixou para pegar a caneca de café, mas logo desistiu. – Você tem algo gelado? Eric esquenta o clima ao redor até em forma de lembrança – sorriu. Ela parecia mesmo corada, como se estivesse com calor. Assenti para ela, fui na cozinha, peguei um copo e enchi-o com suco de uva. Voltei para a sala e estendi o copo para ela. Anna aceitou o copo e sorveu o suco com uma rapidez que me assustou. Ela limpou os lábios com as costas da mão e sorriu: – Adoro suco de uva. Parou de falar, colocou o copo na mesinha de madeira em frente à poltrona e olhou para a parede. Então continuou:

– Estamos bem perto do final dessa história agora. Só falta a última letra de Prazer, não é? Que foi, ou é, Rodrigo. Rodrigo. Conheci-o no trabalho. Ele era o tipo de pessoa que trabalha demais e não tem tempo nem pra respirar – que dirá pegar uma colega de jeito. Mas, você sabe, aquele trabalho de assistente era um saco e eu precisava me agarrar a qualquer coisa de humanidade que eu conseguisse, para não me transformar num robô que nem os que eu via trabalhando naquela empresa. E, para isso, eu teria que humanizar alguém comigo. E eu escolhi o Rodrigo.

Loiro, olhos claros e um jeitinho mignon. Tinha tudo para não chamar minha atenção, eu, que prefiro morenos fortes e másculos. Mas o que aconteceu foi que eu achei que se tinha alguém que estava precisando de uma boa noite de sexo, esse alguém era ele. E eu, também, achei que pelo menos uma letra dessa minha palavra teria que ser voltada para outra pessoa que não eu. Mesmo que ele não fosse ser o responsável pelo meu melhor orgasmo, achei que ele merecia uma chance. Para aprender a viver. E, devo admitir, estava terrivelmente entediada naquele escritório. Precisava mesmo que um caso tórrido ou não conseguiria agüentar nem os meses necessários para ser demitida e ganhar seguro desemprego.

Era noite. Umas 20h e Rodrigo ainda estava lá, claro. Ele geralmente era o último a sair. Quase sempre ficava com a chave para fechar a porta. Eu ainda estava lá pelo simples fato de que escolhera aquela noite para atacá-lo. Ok, talvez atacar não seja o melhor verbo para o que eu fiz. Enfim. Entrei na sua sala e ele sequer notou, de tão concentrado que estava no seu notebook. Girei a chave na fechadura com uma mão, enquanto na outra segurava um vinho. Não sei o nome do vinho. Pra mim, qualquer vinho é bom, desde que seja tinto e não seja seco. Assim que nos tranquei, ele levantou a cabeça. Havia duas olheiras enormes e escuras debaixo de seus olhos. “Realmente, estou fazendo um favor enorme a esse pobre coitado”, pensei, enquanto sorria e colocava a garrafa em cima da mesa, juntamente com a chave. – Er. Oi, Anna – falou ele, em tom profissional – Tudo bem? – perguntou ele, enquanto encarava a garrafa de vinho e a porta de forma desconfiada. Ele havia tirado a gravata e aberto alguns botões da camisa e o que parecia se anunciar por debaixo dela não era tão ruim afinal de contas. – Oi, Rodrigo – falei, sorrindo apenas com um lado da boca. Sentei na mesa dele e cruzei as pernas na direção dele, roçando levemente em seus braços. Estava usando um vestido com decote leve e com comprimento pouco acima do joelho, mas totalmente justo. Rodrigo continuava olhando sem entender. – Er. Hm. Eu posso te ajudar em alguma coisa, Anna? – falou, enquanto engolia em seco, fazendo seu pomo de adão se movimentar adoravelmente. Sempre tive uma queda por pomos de adão à mostra.  Sorri e coloquei a minha mão em cima da mão dele que estava pousada sobre a mesa: – Sim, pode. Comecei a roçar meus pés levemente em suas coxas e continuei: – Sem dúvida nenhuma, pode. Ele se assustou, tirou a mão de debaixo da minha e levantou-se da cadeira onde estava sentado. – O que está fazendo, Anna? – perguntou, olhando para a porta e para mim, para mim e para a porta. Sorri, me levantando e caminhando na direção dele: – Não se preocupe. Estamos apenas nós dois aqui. E aquela garrafa de vinho tinto encorpado – acrescentei, enquanto apontava a garrafa. Ele sorriu, inseguro, enquanto andava de costas. Bateu na parede. Parecia um rato encurralado por um gato, para dar um exemplo clichê. Fui andando, enquanto desabotoava os primeiros botões do meu vestido, deixando à mostra uma magnífica lingerie vermelha que eu comprara especialmente para a ocasião. Seus olhos pareceram crescer em direção ao meus seios. Está no papo, pensei. Parei em frente dele e ele, sem reação, continuava a me encarar. Dividido. Entre a fome e a preocupação com as calorias. Coloquei a mão no colarinho da sua camisa e aproximei meu rosto de sua orelha esquerda. – Não se preocupe – sussurrei, enquanto minhas mãos começavam a trabalhar nos botões da sua camisa – Já conversei com ela e ela disse que não irá contar pra ninguém.

Para um aparente morto-vivo, que era realmente o que Rodrigo parecia, ele tinha uma energia incrível. Ou talvez tenha sido o grande período de seca sexual que eu imagino que ele tenha passado que o tenha feito agir daquela forma completamente esfomeada. Ele, sem dúvida, foi o cara que me deixou mais marcas de chupões em toda a minha vida. Ou marcas de arranhados. Passei várias semanas usando cachecóis, lenços e todas essas peças de roupas maravilhosas para disfarçar que você fez sexo violento na noite anterior. Certos momentos até eu, que adoro sexo, pensava que havia criado um monstro. Rodrigo foi com tanta vontade pra mim que, em certos momentos, ficava muito lisonjeada. Ele demonstrava tanto desejo por mim que eu não podia mais passar na sala dele, durante o expediente, sem que ele ficasse excitado e eu terminasse sendo convocada para uma reunião extraordinária. Logo eu, a assistente. Sim. Em plena luz do dia, com pessoas passado do lado de fora, ligando, falando com ele no computador, nós transávamos. Várias vezes ele atendeu telefonemas enquanto estávamos atracados. E fazia um esforço incrível para não gemer durante no telefone. Ele me achava deliciosamente excitante. Dava para ver o prazer com que ele entrava dentro de mim e se movimentava. Acredito que era só por muito autocontrole que ele não gozava assim que me penetrava. Ele parecia uma criança que fora solta dentro de um parque de diversões pela primeira vez na vida. E eu me excitava loucamente por ser tão desejada.

Difícil, realmente, era disfarçar os gemidos e segurar a vontade de gritar o nome dele. Nessas horas, eu mordia seu lábio ou o beijava de forma bem profunda. Mas isso de disfarçar era só para manter as aparências. Por que claro que todos sabiam que eu não estava tendo nenhuma reunião com ele. O que um gerente de marketing iria querer conversar com uma assistente administrativa. Várias vezes por semana e, até, por dia? Ninguém se enganava, mas não podíamos chutar o pau da barraca né?

Com alguns meses, Rodrigo parecia mais saudável e menos concentrado no trabalho. Vi que ele já havia levado algumas chamadas no trabalho, a maior parte por conta de desatenção. E eu sabia que a culpa era minha. Era eu que fazia, algumas vezes até sem querer, ele parar o que estava fazendo e prestar atenção a curva das minhas pernas. Eu só queria diverti-lo, mas não queria que ele acabasse com sua carreira por isso. Queria apenas revivê-lo. Manter-se vivo era trabalho dele, não? Então fiz um acordo com o chefe e saí da empresa. Sem que ele soubesse. Claro que ele descobriu e foi atrás de mim. Me achou e falou, horrorizado, que eu o havia abandonado sem sequer um adeus. Ele parecia ter chorado, pois tinha os olhos meio inchados e uma atitude meio histérica. Aquilo partiu meu coração. Eu não queria causar dor. Sexo não era pra causar dor, era? E não causava. Mas por que eles tinham que misturar as coisas, meu Deus?

Peguei-o pela mão, sem falar nada, e fui ao tatuador. Abri a porta, soltei a mão de Rodrigo – que continuava me observando, nervoso – e falei com o tatuador: – Por favor, coloque o R que falta nessa tatuagem. O tatuador, já acostumado comigo, pediu para eu sentar. E tatuou o R. Rodrigo, durante toda a tatuagem, ficou olhando atônito pra mim. Quando terminei e saímos do estabelecimento, ele me parou. Segurando-me nos ombros, olhou diretamente nos meus olhos e perguntou o que significava aquilo. Eu acariciei seu rosto e disse que aquilo era pra marcar as maravilhosas transas que ele me proporcionara. Ele devolveu-me um olhar atônito e perdido. Então expliquei:

– Você significou muito para mim, Rodrigo – falei, apertando suas mãos levemente – Mas acabou. Você precisa, agora, marcar outras garotas. De preferência – falei, olhando nos seus olhos – garotas que estejam disponíveis dessa forma que você quer.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte V

Pedi a ela um momento e corri, a fim de comprar-nos picolés no carrinho que passava ali no parque naquele momento. Alice tinha finalmente adormecido e ressonava feliz na toalha xadrez que Anna havia trazido para almoçarmos. Eu tinha vontade, todo o tempo, de correr na minha casa e pegar um gravador. Sabia que nunca na vida conseguiria me lembrar de todos os detalhes que Anna estava me passando. E esse não é gênero de história que eu aceitaria esquecer. Mas achei que seria chato. Afinal, eu não a estava entrevistando, ou coisa assim. Ela estava me contando uma história. A sua história. Talvez demonstrar tanta vontade de guardar tudo não seja muito saudável para a nossa recente relação.

Perguntei ao moço que vendia os picolés quais os sabores que ele tinha. Ele disse que só tinha morango e limão. Fiquei feliz, pois adoro sabores azedos, mas não sabia sobre a minha nova amiga. Sequer tinha me lembrado de perguntar qual sabor ela preferia. Paciência. Levaria um de cada e torceria para ela gostar de algum. Pedi um de morango e um de limão e dei o dinheiro ao vendedor, deixando-o ficar com o troco.  Estava apressada para escutar o resto da história, que ainda deveria durar algum tempo. E, além disso, me sentia generosa por alguém estar sendo generoso comigo. É verdade. Generosidade gera generosidade. Provavelmente, mais tarde, o vendedor vai dar um picolé de graça para alguém. E esse alguém vai comprar um bombom para uma pessoa que ele ama. E… Enfim. Fui pensando nisso enquanto corria para a toalha vermelha, como uma criança ansiosa. Esbaforida, perguntei-lhe qual sabor ela preferia. Ela olhou para o pacotinho verde e o pacotinho rosa e escolheu o de limão, solene. – Passe-me esse, disse ela. Atendi o seu pedido, passando-lhe o pacote verde com estampas de limões amarelados, enquanto eu mesma abria o meu picolé de morango, que estava com uma cara boa. Se é que um picolé pode ter uma cara boa.

Ficamos um tempinho nessa, ela parecendo muito interessada no seu picolé azedo e branco. Eu terminei o meu e fiquei observando-a saborear lentamente o picolé, enquanto o mesmo derretia. Disse a ela, divertida, que se ela não se apressasse o picolé derreteria antes dela terminar de comê-lo. Ela olhou pra mim sem expressão e disse: Bem, isso é problema do picolé, não meu. Eu não me apressarei por causa da pressa dele. A minha vida eu vivo no meu ritmo, não no dele. olhei embasbacada para ela e não fiz mais nenhum comentário, para evitar tensões. Ela chupou seu picolé até onde pôde e depois, quando 50% dele tinha virado suco de limão, ela deixou-o de lado e, limpando os cantos da boca, perguntou: Então, quer ouvir a continuação da história? Eu continuei olhando para ela, implicitamente concordando. Ela, assim sendo, sentou-se em posição de meditação e continuou a contar sua história.
– Eu parei no Alexandre, não foi? Isso. Bem, o quarto foi o José Carlos que, obviamente, era chamado Zeca, como todos os Josés Carlos desse mundo. Ele era simples, em todas as implicações desse adjetivo. Ele morava numa casa simples, tinha uma família simples, uma vida simples. Estudava Geografia pela manhã numa faculdade pública – a que eu estudava – e, à tarde, dava aulas numa escola próxima da sua casa. Sua família era ele, seus pais e uma irmã bem mais nova – acho que a menininha tinha uns sete anos. Para ele a vida não tinha que ser complicada. Posso até chutar que a nossa relação, na visão dele, foi calma e sem maiores complicações. O que claro que não foi. Na verdade, me perguntei por muito tempo por que quis adicioná-lo a minha nuca, junto com tantos nomes ilustres. Quero dizer, todos eles tiveram seu quê de diferença bem à mostra. Mas, enfim, o Zeca era diferente, na sua simplicidade esquisita. Nós nos conhecemos, como se deve imaginar, na faculdade. Ele estava sentado, lendo algum livro chato de Geografia e eu observando-o à distância de uns dois metros. Ele tinha um cabelo castanho cortado tão certinho e um vento repentinho bateu na parte da frente do cabelo e fez ele cair nos olhos dele, como uma franja. Ele automaticamente colocou as mechas no lugar. O vento foi lá e fez de novo. Ele ajeitou de novo. Enfim, acho que tudo se repetiu umas cinco vezes até que eu cheguei à conclusão de que ele era o próximo da minha lista. Daí, você sabe, simples ou complexo, eu iria conseguí-lo pra mim. Cheguei perto dele, puxei conversa e ele, naturalmente, se mostrou interessado em conversar comigo. E depois se mostrou interessado em se enrolar num edredom comigo e fazer… o quê? Não era amor, claro. Para Zeca as coisas eram muito simples, era quase como se ele tivesse um script a seguir em sua vida. Ele ficou comigo por que era natural que ele ficasse, uma vez que eu estava me oferecendo de tão bom grado. E como eu era bonita, não era realmente um sacrifício. Ele deve ter pensado que, se é pra ser, que seja com uma gostosa. E eu estava ali, linda e loira, dando sopa total. Então ele me pegou, ué.

Não vou dizer que era ruim o sexo com ele. Não era não. Ele fazia de tudo para me agradar (por que é isso que os homens fazem, não é?), mas não era lá muito inovador. O papai-mamãe é gostoso, mas tudo enjoa com o tempo. Ele gostava que eu tivesse prazer, mas nada de orgasmos múltiplos. Quer dizer, pra quê né? Um abuso. Sem simples, descomplicado. E com o tempo, muito aborrecido. Ele era fofo e tudo, sempre trazia bombons pra mim, nunca discutia comigo (não quer dizer que ele fizesse tudo o que eu queria, mas ele nunca discutia. O que era um saco), nunca deu ataques nem nada (na verdade, nunca teve motivo para), mas… Que coisa sem sal, sabe? Eu estava procurando mais e, sei lá. Provar da simplicidade dele foi gostoso, foi sim. Mas definitivamente não seria ele que me faria desistir da minha tatuagem. O fim foi bem calmo e, como não poderia deixar de ser, simples. Ele discutiu muito pouco e não ficou se lamentando pelos cantos depois. Sinceramente, até hoje não faço nenhuma ideia se ele se envolveu comigo, mesmo sexualmente. Tudo parecia natural, mas ele não aparentava estar conectado, sabe? Quer dizer, para ele tanto fazia. Foi diferente, e por isso eu tatuei o seu Z no meu pescoço. Mas jurei nunca mais pegar alguém tão simplório.

Eu me sentia como que numa missão impossível, tentando guardar tudo quanto possível da história. Não ia conseguir. Eu sequer estava anotando os pontos mais relevantes ou algo assim. Eu perderia os seus nomes. Eu precisava de tempo. Eu precisava anotar logo tudo o que minha memória RAM estava guardando, antes que ela enchesse a ponto de deletar tudo o que guardou pra guardar a informação nova que vinha. Então, eu corajosamente e morrendo de medo ao mesmo tempo, interrompi Anna, quando ela tomava ar para começar a letra E: – Anna – comecei. Ela parou, como que acordada de algum estranho estado de transe: – Sim… desculpe, mas qual é o seu nome? Meu Deus, como posso contar a história da minha vida para uma pessoa que nem sei o nome?! – chocou-se ela, passando as mãos nervosamente pelos cabelos loiros. Abri a boca num balbucio, mas ela me interrompeu: – Não, não diga o seu nome. Acho que prefiro não saber. Acho que prefiro não te conhecer. Não sei se você entende, mas é que o conhecimento traz tantos problemas. Se eu soubesse seu sabor preferido de bala talvez não pudesse te contar tudo o que estou te contando, com essa franqueza. Entende? Não sei, não sei… – murmurou, enquanto colocava umas das unhas bem-feitas na boca, meio mordendo-a. Sorri e assenti, acenando com a cabeça levemente: – Sim, Anna. Compreendo completamente. Talvez se você soubesse meu nome eu também não me sentisse tão à vontade para ouvir sua história. Ela sorriu com minha concordância: – Você é uma boa ouvinte – falou. – Sim, sou – concordei – mas não tenho uma memória tão boa, sabe? Você não poderia continuar a história amanhã? Temo perder os fatos que me conta nessa bagunça que eu chamo de cabeça. Eu preciso passá-los pro papel, preciso documentá-los.
Anna ficou olhando pro lago. Pensei que ela não ia querer me contar mais nada, por eu ser uma abusada que queria escrever a sua história, sabe-se lá com que intuitos. Foram longos minutos, nos quais dei por perdida a situação. That’s it. Já era. Nunca saberei o fim dessa fabulosa história. Tudo por causa da minha mania de documentar tudo. Mas que porcaria!
Fui me levantando da toalha xadrez e, enquanto espanava com as mãos algumas folhinhas de grama que tinham ficado presas no meus jeans, Anna finalmente falou: – Claro. Tudo bem. Eu realmente queria fechar essa página da minha vida hoje. Nem ao menos sei por que você quer tanto saber disso, sabe? Mas estarei aqui, pela manhã. Amanhã – parou, inspirou profundamente e olhou pra mim – Mas de amanhã não passa. Certo?
Não compreendi sua pressa em acabar com uma história tão empolgante, mas assenti mesmo assim. Anna falou: – Pode ir, se quiser. Vou ficar com Alice por um tempo, ainda. Alice não vai me perdoar se ela não der um último passeio no parque – falou sorrindo e acariciando os cabelos dourados da linda menininha adormecida no na toalha xadrez.

Me encontre às 4h30, na privada.

– Deus, não permita que seja assim. Era tudo o que ela podia pensar, sentada na privada, com o seu destino entregue a um pedaço de papel melado de urina. Sua urina. As duas últimas semanas tinham sido semanas de cão. Não que ela tivesse trabalhado muito. Não. Mas ela não conseguia dormir direito, pensando. Na verdade, ela se esforçava para não pensar. Mais que isso, ela proibia-se de pensar nessa possibilidade, com medo de que, ao pensar na mesma, ela se tornasse realidade. Então, o que não a deixava dormir era um grande oco preenchido com pensamentos que não deveriam estar ali por que ela não os queria ali. Então eles não estavam. Mas estavam. E assim se passou uma semana, na qual ela implorou para todos os anjos protetores que enviassem aquela bendita menstruação. Na semana seguinte, ela já tinha apelado pros santos, mártires e, claro, para o próprio Deus. Não que ela não merecesse tal castigo. Certamente merecia uma coisa muito pior do que ter um filho na situação que se encontrava. Mas acreditava na misericórdia divina. Mas eis que a menstruação continuou ausente, aquela maldita. Seu namorado ainda não sabia de nada, assim, abertamente. Mas ela sabia que ele estava desconfiado de  que alguma coisa acontecia, devido a alguns comentários aleatórios que ela fez. Porém, ela se recusou a dividir mais, antes de ter certeza. Para quê despedaçar todos os sonhos juvenis por uma psicose infundada?, era o que ela pensava.  No entanto… Bem, no entanto não era só o que ela pensava. Ela tinha medo. Como poderia não ter? Confiava que o namorado continuaria com ela viesse o que viesse, por que ela estava com ele há – bem, ela nem ao menos lembra quanto tempo. Parece mais uma vida inteira  e mais um pedaço de outra.

Quanto tempo dura uma vida? Bem, para ela, a dela estava prestes a acabar. Por que tudo o que ela idealizou iria água a abaixo, junto com a urina do potinho do exame, se ela estivesse realmente grávida. Tudo. A acabar por causa de uma tarde relativamente descuidada. Mas COMO podia ser? Sequer havia acontecido alguma coisa.! Tudo bem que ele se empolgara um pouco, e ela também. Mas, quando ela percebeu que não havia camisinha, ela retrocedeu o mais rápido que era possível. Para não ter que lidar com esse tipo de consequência. Agora pagaria por tudo o que falara das outras pobres coitadas. Seria ela a irresponsável.  Ela aprenderia tudo da forma mais difícil. E mesmo contando com ele  ao seu lado, seria difícil. Seria horrível. Ela mal queria pensar na possibilidade. No entanto, os 5 minutos fatídicos tinham acabado de passar e ela estava morta de medo de tirar o papel de dentro do potinho e ter que lidar com duas listras. Sentia vontade agora de ter dividido essa preocupação e suas consequências. Não queria sozinha puxar aquele papel molhado. Não queria sozinha lidar com aquele resultado, fosse ele positivo ou negativo. E se fosse positivo, não queria ter que ser ela a fazer cara de enterro para contar a sua alma gêmea que, bem, as coisas para eles seriam muito difíceis agora. Não. Não queria mais arcar com tal responsabilidade. Nunca quis. Mas não pensou. E agora precisa tirar o papelzinho de lá, antes que seu tempo de permanência extrapole. Tirou. Ficou olhando para o chão. E agora? Como fazer? Será que deve ser como arrancar um esparadrapo, ou a cera quente? Rápido, para ser indolor. Não parece que funcionará, de qualquer forma. Isso de ser indolor. Por que a dor vai ser prolongada. E compartilhada. Melhor olhar logo. Para quê a espera? Agora o saber está a uma levantada de cabeça. Olhe pra cima. Indepentemente do que acontecer, não será o fim da sua vida. Será o começo de uma nova etapa, dizia uma voz positiva no fundo dela.

Já aceitando o fato de ser uma futura mãe, olhou o papel. Uma listra. Oh. Uma listra. Então.

Esperou, parada, uma onda de alívio percorrê-la. Ela veio, mas ainda temerosa. O teste tem 99,9% de chances de estar correto. E se eu fizer parte do 0,01% azarado?, pensou ela, embora já estivesse mesmo descartando tal possibilidade. Graças a Deus, Graças a Deus. Muito obrigada, meu Deus. Você me deu esse amor e não para que fizessemos tudo errado. Faremos como deve, faremos como deve ser, mentalizava agradecida, enquanto se livrava das provas do seu crime. A casa dormitava silenciosa, às 4h30 da manhã. Seus pais dormiam os sonos dos pais que tem uma filha sem filhos, ainda. E parecia que, graças a Deus, eles continuariam assim por um tempo. Voltou a cama. Dessa vez dormiu. E não sonhou com nada. Afinal, esse era o sonho certo. Sua vida continuaria a mesma. Não era nem tanto pelo bebê. Ela é que odiava mudanças.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte IV

Almoçamos em cima de uma adorável toalha xadrez vermelha e branca. Me senti como que num sonho sépia, comendo aqueles sanduíches de salpicão com aquela loirinha elétrica e sua adorável e indiscutivelmente incomum mãe. Claro que Alice não estava comendo, para desespero de Anna. Ela simplesmente jogava pedaços de seu pão com salpicão para os pombos famintos que, por razões óbvias, não a deixavam em paz. Anna tentava espantá-los, mas Alice desfazia todo o seu trabalho, jogando mais pedacinhos de sanduíche para eles. E eu nem sabia que pombos eram carnívoros. Acho que alguém deveria tê-los avisado que ali tinha pedaços de galinha. Embora eu realmente ache que os pombos não ia se importar, at all. Longe de serem domesticados, ali era a guerra. Cada pombo por si, e todos pelo pedaço de pão que Alice estava jogando. Se havia pedaços de outras aves quaisquer, bem. Problema delas, eles que não ia deixar de encher o buchinho por causa disso. Realmente, quanto mais observo os animais, vejo o tanto que temos em comum com eles. O que é uma vergonha, já que somos supostamente racionais. Whatever. Alice nos abandonou assim que terminou de comer/dar comida aos pombos e correu para comprar mais pipoca para dar para os pombos sempre famintos. Eu fiquei a observar o lago do parque, meio esquecida de por que estava ali. Anna me lembrou, continuando a narrativa dela, enquanto me oferecia um pedaço de uma barra de Hersheys pela metade: – Quer? É ótimo, tem uns crocantezinhos dentro, uma delícia. Aqui ó. É meu chocolate predileto, esse. Hm. Então, onde foi que eu parei? Ricardo né? Ah, ainda falta muito, espero que você realmente esteja interessada nisso. E parou, como se esperasse minha confirmação. Assenti com a cabeça com vontade, para não deixar nenhuma dúvida e para que ela se adiantasse o quanto antes à narrativa. O que ela fez.

– Bem, então tá. O terceiro a ter sua inicial devidamente tatuada na minha nuca foi o Alexandre. Alexandre não chamava, à primeira vista, muita atenção. Ele era meio recluso e creio que, não fossem condições especiais, jamais o teria conhecido. Um dia, não sei por que, tive vontade de entrar numa livraria num bairro aqui pelos arredores. Era uma loja meio antiga, tinha uma vitrine tão diferente, cheia daqueles livros de capa dura vermelhos, verdes, pretos com letras douradas, que você simplesmente não vê mais por aí. E novos! Sempre quis ter um daqueles, achei que sempre elevavam as pessoas a um status intelectual diferenciado. Não pretendia lê-los, claro. Mas queria ter pelo menos um daqueles guardados, para situações de emergência, na qual eu tivesse que fazer alguma fita para parecer inteligente. Entrei na livraria e ela parecia inabitava, à primeira vista. Melhor, pensei, assim posso flanelar por aí sem ninguém atrás de mim, perguntando se pode ajudar. Então comecei a vagar pelos exemplares verdes. Gosto de verde, já disse? Não sei bem por que, mas o verde me dá uma sensação de liberdade. Mesmo naquela minúscula livraria. Achei um exemplar de Dostoiévski chamado Crime e Castigo, numa estante de madeira um pouco empoeirada. Não sei bem por que me senti atraída por aquele nome em especial, já que sequer tinha ouvido falar na história. Mas o nome do autor era tão diferente. E o título tão… sugestivo. Não sei, de alguma forma, foi instântaneo. Abri o livro e comei a folhear-lo, sem fazer idéia do que tratava aquele livro, mas mesmo assim sabendo não-tão-no-fundo-assim que eu ia levá-lo de qualquer forma. De repente, o susto. “Posso te ajudar?”, disse uma voz masculina grave bafejando na minha nuca e fazendo meus pelinhos arrepiarem. O livro caiu. Acho que em algum momento acabei por deixá-lo cair. No momento em que ele se abaixou para pegar meu livro – sim, era meu. eu ainda não havia pago por ele, mas ele já era meu, assim como eu já era parte dele – e pediu desculpas por ter me assustado, enquanto ajustava os óculos que tinha escorregado para a ponta do nariz, eu soube. Soube que ele seria meu novo alvo. Ele era bem diferente do que eu estava acostumada. Caras bonitos, eu digo. Alexandre não era bonito, mas tinha um charme próprio das pessoas que usam óculos maiores que o rosto e passam 99% do tempo com a cara enfiadas em papéis. E tinha um papo ótimo. “Em que posso ajudar, srta..?”, Alexandre falou, me devolvendo o livro verde. “Anna”, falei, com entusiasmo, me demorando a pegar o livro de propósito. Nunca fui boa em esconder emoções, embora tivesse saído ilesa até agora na minha empreitada. “Certo, Srta Anna. Se interessou por Dostoiévski? Esse livro é muito bom”, falou ele, sorrindo. “Você diria isso de qualquer forma”, eu disse, rindo. “Você precisa sobreviver, afinal”, continuei. Ele juntou as sobrancelhas numa cara de discordância: “Jamais, Srta. Essa livraria não é um meio de vida, até por que eu realmente morreria de fome, dependendo dela. O livro é realmente bom”, falou sério. E por aí foi, eu fazendo ele me contar a história toda do livro, fingindo-me em dúvida, apenas para ouví-lo falar sobre o livro daquela forma apaixonada que faziam seus olhos brilharem. Comprei o livro, óbvio. Mas só depois de fazê-lo me convidar a tomar um café comigo numa cafeteria próxima dali. É claro que ele se apaixonou por mim. Eu sei que sim, embora ele fosse tão mais discreto com isso do que os outros. Tive medo, de verdade, de criar problemas para ele. E talvez para mim mesma. Eu sabia lidar com o exterior, sim. Mas aquele tinha uma capacidade argumentativa bem capaz de me fazer desistir das minhas intenções. Principalmente se ele acreditasse que tínhamos algo diferente. Algo que valesse a pena.

Nossa primeira vez foi, obviamente, na livraria. Eu passava lá sempre antes de ir para faculdade, trazendo comida chinesa. Ele sempre reclamava, dizendo que eu vinha com esses molhos gordurosos melecar os amados livros dele. Eu estava sempre a competir com os benditos livros. Não ligava. A competição me fazia lembrar do meu objetivo. A não perder o foco, o que seria muito fácil, fazendo amor todos os dias – e várias vezes no dia – naquele tapete macio que cobria uma parte especial da livraria, onde encontrei meu Dostoiévski. Claro que ele também me proporcionou esse tipo de prazer, o sexual. Mas, além disso, ele me apresentou uma dimensão meio que subestimada por mim, o intelecto. Depois dele, passei a procurar pessoas que pudessem me oferecer mais do que apenas o prazer sexual, que era algo ótimo, sim. Mas não era tudo. Não mais. Não mais para ter sua inicial na minha nuca. Durou apenas 5 meses, tempo que levei para ler meu Dostoiévski. Não achei prudente continuar algo que poderia machucá-lo, meu doce intelectual, embora realmente me fosse difícil abandonar a idéia do amor matinal com café e alguns livros meio comidos por traças naquele tapete macio que já tinha um cheiro tão alexandrino. Não quis deixar meu coração a mercê dele, pois ele já havia conquistado meu corpo e minha mente. Pouco demoraria para ele tomar conta de tudo e se tornar o meu Grande. Ele, para grande espanto meu, chorou. Não pensava que ele tivesse realmente se apaixonado por mim, embora ele desse alguns sinais. Mas, enfim, só tinhámos 5 meses, ele se recuperaria. Ou foi o que pensei. Por via das dúvidas, nunca mais passei na rua daquela livraria. Você sabe, aqueles fins meio trágicos de Dostoiévski e tal, vai que ele ficava muito louco, sei lá. Só sei que tatuei a letra A e, a esse ponto, o tatuador nem se importava mais comigo. E não se oferecia mais para fazer 837 desenhos diferentes que ele julgava adequados para minha nuca. Apenas o que eu pedia. Vi que, afinal, talvez fosse possível educar os homens para quererem fazer apenas o que você quer que eles façam. Mas não no campo amoroso, infelizmente.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte III

No dia seguinte, cheguei cedo por demais no parque. Na verdade, mal tinha conseguido dormir de tanto pensar em toda história intrigante e nos estranho da situação. Realmente, era uma história entre as histórias. Uma história que eu não podia deixar passar. Então, terminei adiantando minha chegada no parque, sem sentir. Tanto que tive tempo o suficiente para ler o meu livro, embora sua estória já não me interessasse mais e eu constantemente levantasse meus olhos de suas páginas para procurar por Anna. Será que ela viria, afinal? Vejam bem, não tinha nada para me provar que tudo aquilo que acontecera não fora um sonho estranho. Na verdade, todas as provas que eu tinha só me levavam a acreditar que a situação ocorrera num sonho mesmo e que eu, muito boba que sou, acordei pensando que teria direito à continuação do sonho. Sabe? Quando a gente acorda antes do sonho tomar o caminho que queremos e tentamos dormir de novo e sonhar com a continuação dele? Pois é. Eu me sentia assim, sentada naquele banco meio descascado do parque, de frente pros pombos famintos. Eu e os pombos. Nós tinhámos muito em comum. Nós nos acostumáramos com aqueles seres mágicos, nós nos apaixonamos por eles, nos deixamos levar. E agora, ansiávamos por eles e pelo o que eles traziam consigo. Anna, suas histórias para mim. E Alice, sua pipoca, para os pombos.

Eu estava nessa quando os pombos arrulharam de forma meio exagerada, até mesmo para eles, que nãoe ram nada discretos. Olhei na direção do som e vi uma certa menininha loira correndo feliz em diração aos pombos, cheia de amor e pipoca pra dar. Eles mal podiama creditar na sua sorte. E eu também não, ao ver Anna sorrindo na minha direção. Acenei rapidamente para ela e apontei para o banco onde eu estava sentada.  Ela caminhou até onde eu estava: –  Olá, querida, disse sorrindo, Qual o seu nome mesmo? Sorri, lembrando que não tinhámos nos apresentado totalmente ontem e respondi que é Amanda. Ela então pediu para que nos sentássemos na beira do lago naquele dia, pois havia enjoado do banco no qual eu estava sentada. Não pude deixar de rir da nossa diferença de personalidades. Eu, sempre indo ao parque e sentando naquele mesmo banco desde…desde sempre, creio eu. Ela, que eu nunca tinha visto por ali, só sentou naquele banco uma única vez – que eu saiba – e já estava enjoada dele. Não quis comentar, mas tinha medo que ela enjoasse de contar a história pra mim. Então levantei rápido e segui-a até a margem do lago. Ela estendeu uma pano florido na grama e nos sentamos. Ela sorriu e disse: – Sou muito volúvel, é verdade. Mas a minha volubilidade não é maldade, nem nada. Eu apenas tenho a noção de que tenho muito pouco tempo na Terra e quero aproveitar o máximo de sensações que me são possíveis no momento. Sei que esse negócio de viver a vida intensamente é clichê. Mas do jeito que eu faço não é. Eu só vou por um caminho diferente, experimento um novo sabor de biscoito, leio um livro que não me chama atenção. Sabe? Só pra ver no que dá. Pode ser que dê extremamente errado. Mas pode ser que eu me surpreenda, não é mesmo? Acenei que sim, olhos fixos nela, esperando o momento que ela iria continuar a história de ontem. Ela sorriu – na verdade, ela sorria muito, e isso era encantador nela – e continuou: Eu sei que você está bastante ansiosa pra saber a continuação da minha história e isso em deixa realmente chocada e feliz. Afinal, se você se interessa por ela, então ela não é apenas uma historiazinha vulgar. Quero dizer, eu já sabia que tudo tinha sido válido, mas ver o seu interesse me deixa muito feliz. Ela parou, olhou pro meu rosto ansioso e resolveu enfim começar.

– Então, parei no Paris, certo? Bem, como já disse, acabei tudo com ele, já que ele fez a bobagem de se apaixonar por mim e acabar com minha felicidade. Então, tive que passar para a próxima letra. Um R. E logo que comecei a pensar na mesma, lembrei do Ricardo. Ricardo era uma antiga paixão platônica minha, por isso pensei muito antes de elegê-lo como minha próxima letra da tatuagem. Por que, claro, eu corria o risco irremediável de me apaixonar por ele de verdade e aí eu ficaria só no PR. Mas, se eu conseguisse controlar meu coração, seria uma ótima aquisição, sem dúvidas. Não me olhe assim, querida. Eu tinha que tratá-los assim, para o meu próprio bem. A regra era escolher os melhores para terem suas inicias no meu pescoço, mas eles não seriam alvo de uma consideração maior por causa disso. Seriam apenas uma aprte boa do meu passado. Passado. Morto. Claro que você sabe que eu não resisti a correr esse risco. Dele eu queria mais. Eu queria fazê-lo sofrer, não sei bem por que. Queria fazer ele se apaixonar por mim, embora eu não fosse me apaixonar pelo mesmo. Acho que era algum tipo de vingança por todo o tempo que amei-o em silêncio. Não que ainda o amasse quando resolvi escolhê-lo. Foi algo que aconteceu há pelo menos 2 anos. Eu já estava curada da minha paixonite. Outros a curaram. Mas ele não se safaria fácil do seu castigo. E eu seria sua torturadora.

Ricardo era um moreno claro bastante bonito. Tinha uns traços meio aristocráticos, um nariz afilado, um maxilar bem delineado. O corpo malhado de quem malha por prazer, não aquelas coisas bombadas horríveis. E olhos totalmente pretos. Bem. Como já te falei, não era nada difícil conseguir os caras. Ricardo também não foi. Eles fogem apenas se perceberem que você quer uma coisa que eles não podem te dar. Mas quando é você que quer dar alguma coisa pra eles, eles simplesmente correm pra cima de você. Claro, sempre há exceções, e eu conheci uma, como te contarei depois. Mas a maioria é assim e Ricardo, para desgraça dele, não era diferente. Umas insinuações, uns cochichos e umas cervejas depois – ele bebeu, eu não. Queria estar muito sóbria para avaliar como ele se sairia – e ele estava no papo. Dessa vez, não foi num carro. Ricardo era de família rica e tinha dinheiro para gastar, então me levou pra um motel muito caro e, claro, aproveitei o máximo que pude do mesmo. Tive que admitir que ele também mandava muito bem na cama e certamente teria seu R devidamente tatuado na minha nuca.  Experimentei muita coisa com ele. Principalmente posições sexuais diferentes, camisinhas de gostos variados e maneiras diferentes de enlouquecer e fazer enlouquecer. Eu era extremamente safada com ele, diferentemente da forma com a qual agia com o Paris, por exemplo.  Eu o excitava em público e ele queria me matar e me possuir ao mesmo tempo. Era algo muito profundo e, ao mesmo tempo, apenas atração. Durou uns seis meses, tempo suficiente para fazê-lo se apaixonar por mim. Chegou o dia dos namorados e lá veio ele com ursinhos, bombons e um pedido de namoro sério. Sabe? Pra noivar, casar, ter filhos e ficar velhinhos juntos. Ah, meu bem. O que o sexo não conseguir, nada mais consegue. Eu olhei com desprezo para aqueles presentes e para a declaração de amor dele, que pairava no ar mesmo minutos antes de ter sido proferida, como uma nuvem negra anunciando um temporal. Sim. Ele se declarou pra mim. E, se eu quiser ser sincera, não posso dizer que não me senti balançada.  Claro que sim. Aquele seria sem dúvida uma aquisição amorosa ainda melhor do que Paris. E não posso negar que estava muito difícil domar meu coração em relação ao mesmo, já que passamos 6 meses fazendo o que a maioria das pessoas chamam de amor, mas que eu insistia em chamar de única e exclusivamente sexo. Não queria misturar as coisas. Não podia ou seria o fim da minha empreitada. Então, informei-o de que não me sentia assim em relação a ele, o que não era totalmente mentira. Mas também não era totalmente verdade. E disse que era melhor para nós dois que as coisas terminassem por ali mesmo e ele, tão em estado de choque estava, que  concordou sem pestanejar comigo. Ele não esperava que eu, euzinha, não correspondesse aos seus sentimentos. Ele misturou. E agora tentava achar uma explicação decente para o que eu fazia. Não deve ter encontrado uma muito lisonjeira, já que não estava sabendo do meu objetivo. Provavelmente fiquei gravada na mente dele como uma putinha ordinária que não sabia amar.

Não passou muito longe do que pensei de mim mesma. Foi muito difícil, pra mim, ir em frente depois do Ricardo. Então percebi que não poderia mais passar tanto tempo com os meus futuros… futuros o quê?  Não consigo uma palavra que os defina decentemente. Meus futuros homens? Estranho. Muito vulgar. Embora a minha empreitada fosse apenas uma busca pelo prazer, temia ser malvista. O machismo existe e com vontade. Mas eu não me deixaria abalar por tão pouco, não depois de já ter começado. Então fui no mesmo tatuador e pedi um R, logo após o P. Ele achou extremamente estranho, mas dessa vez apenas fez o que deveria ser feito, sem perguntar mais bobagens. E resolvi que assim agiria nas próximas letras. Não envolveria mais sentimentos escusos onde eles não eram chamados. Só cometo erros uma vez. Acho.

Anna silenciou e ficou olhando o lago calmo e os patos calmamente planando nele. Perguntei a ela se ela iria embora cedo hoje. Ela sorriu e disse que não fora embora cedo ontem, mas que hoje só iria embora depois de terminar de contar toda a história, pois não aguentaria vir àquele parque mais uma vez. Sorri, sem entender como passaríamos o dia todo no parque. Perguntando sobre isso, ela disse que trouxera almoço para todas nós. Teríamos um perfeito piquenique na grama, com direito a toalha zadrez e cestinha de palha. Cada momento perto de Anna era mais uma razão para eu achar que tinha me infiltrado em algum livro louco e não conseguia/queria sair dele. Perguntou se eu queria almoçar agora. Eu disse que tanto fazia. E ela se levantou, chamando sua rebenta para a refeição.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte II

– Houve um tempo em que era um exemplo daquelas pessoas que a sociedade, depois de muito pensar, resolve enfiar na categoria ‘esquisita’. Eu não era comum, falou, sorrindo para um ponto bem além, para o horizonte, penso eu. Ou talvez para aquela sua antiga, aparentemente, vida. Eu sorri, e disse que comum era um conceito assaz dúbio. Ela concordou com um aceno e adicionou: – Mas eu não era comum mesmo. Claro que as pessoas pensavam que eu era uma menininha à toa, sem nada de mais interessante pra pensar. Mas acontece que eu queria viver a vida, de verdade. Não queria passar pela vida sem ter uma boa história pra contar. Uma história minha, sabe? Eu só queria um história que as pessoas não dormissem escutando. Ou lendo. Que as pessoas quisessem contar por aí. Eu não queria, nunca quis, ser mais uma na multidão. E estava disposta a fazer o que fosse possível para ter uma história respeitável comigo. Olhei para ela, acho, de uma forma meio medrosa. Não conseguia imaginar aquela garota com AIDS ou ainda tomando drogas e aqueles belos olhos verdes avermelhados. Me bateu um medo de ter me envolvido numa conversa com alguém perigoso. Bom, pensei, agora é tarde. Não sairei antes de ouvir a história toda. Boas histórias são assim. Você paga quase qualquer preço para ouví-las, não importa o quanto te machuquem. Ela pareceu ter lido meus pensamentos: – Não usei drogas, não se preocupe. Também não quis ser prostituta. Pensei muito. E repensei. E achei que a melhor forma de viver é a vida era tendo o máximo de prazer com o qual eu pudesse lidar. Então resolvi. E essa é a história da minha tatuagem, sabe? Resolvi que tatuaria PRAZER na minha nuca, um lugar muito sensível à no mínimo, respiração alheia, se é que você me entende. Dei um meio sorriso e disse que, sim, entendia. Se entendia! – Pois é, ela continuou, e cada letra de prazer seria a inicial de um cara que me tivesse proporcionado isso. Prazer, sabe? Nada faria mais sentido, não acha? Achei estranho, mas assenti com a cabeça, não querendo perder o resto da história, embora eu, utilizando da minha humilde forma de ver o mundo, achasse muito mais interessante ver como as coisas se davam, ao invés de simplesmente projetar cada pedaço da minha vida. Perguntei a ela se o que ela tinha acabado de dizer não significaria que ela teria de escolher os amantes de acordo com os seus nomes – mais exatamente suas iniciais. Ela assentiu. – Sim, é verdade. Eles seriam escolhidos na ordem, também, das letras. Eu disse que achava essa uma tarefa muito difícil, de escolher os amantes, ainda mais tendo em conta tantos filtros. Ela continuou: Na verdade não foi. Uma vez que eu era muito bonita, jovem e estava afim, nada era impossível. Na verdade, era tudo muito possível. O difícil era só encontrar os candidatos que me apetececem, que mexessem com meus hormônios, que fizessem o sangue correr e o meu eu animalesco surgir. Uma vez eleitos, nada poderia me dissuadir de conseguir o que eu queria. Prazer. Houve um silêncio curto e então perguntei a ela quantos anos tinha quando começou sua busca. – Ah, eu tinha 15. Idadezinha clichê né? Eu sei. Mas achei que era a idade certa. Me senti pronta para a minha aventura. Tem certeza que quer ouvir? É um pouco longa. Assenti agoniadamente, extremamente curiosa pelo que viria a seguir e também com medo que ela desistisse de contar sua vida à completa estranha que eu era.

Ela olhou pra mim como que para ter certeza de que eu estava realmente interessada e então continuou:  – Pois é, não pense que eu saí caçando por aí. Não. Eu apenas fiquei alerta, alerta para os nomes certos acompanhados dos caras certos. O primeiro amante da lista foi Paris. Sim. Sua mãe era professora de História e gamada num conquistador barato, então você pode imaginar por que ele ganhou tal nome. Não farei descrições baratas dos meus amantes, não tenho sequer a remota crença de que minha descrição seria mesmo que loginquamente decente. Mas o Paris tinha um cheiro ótimo. Ele cheirava a sabonete. Sempre tive uma queda por cheiro de sabonete. Não tem nada melhor do que limpeza, certo? Pelo menos o cara tomava banho. Acho que tinha alguma amiga minha estava interessada nele, mas é claro que ela não tinha chance alguma contra mim e minha determinação. Decidi, logo depois de sentir seu cheiro bom, que ele seria o meu primeiro. O P do meu prazer. Ele seria meu conquistador barato e me sequestraria para a Tróia dele. Bem, passei bem longe. Ele me levou foi para um fusquinha apertado, porém limpinho. Cheirava a limpo, como o dono e brilhava. Ah, o primeiro carro. A primeira pegada num carro. Quando ele me convidou pra dar uma voltinha, sabia o que aconteceria. Senti o cheiro no ar. O cheiro de hormônios em ebulição. Os meus então, já estavam começando a evaporar. Eu suava frio, de excitação e expectativa. Foi ótimo. É, primeira vez dói mesmo. Mas eu tive várias primeiras vezes com ele. E cada uma era melhor que a anterior. Até que eu provei do que era bom. E quis mais. E achei que ele merecia ter o seu P tatuado na minha nuca, depois de conseguir atingir êxito na tarefa que ele, sem saber, tinha aceitado. Me proporcionar prazer. Devo dizer que nos pegamos em todos os lugares, menos na cama. Cama era luxo pra jovenzinhos de 15 (eu) e 17 (ele). Impossível obter. O fusca era apertado, mas muito acolhedor. Igual ao meu interior. Era enlouquecedor pra mim ver o quanto ele era suscetível a mim. Uma passada de mão no seu cabelo, um beijo atrás orelha, uma frasezinha sacana no ouvido dele e ele está lá, bem firme e forte, se você me entende bem. Não sabia que era tão fácil assim. Eu era muito mais difícil de agradar, embora isso não seja novidade hoje em dia pra nenhuma de nós do sexo feminino. Somos por vida mais exigentes, não é mesmo? Passei uns 3 meses nessa loucura com ele. Mas então ele quis tornar as coisas mais sérias. Não pude,  nosso contrato tácito envolvia sexo, sim. Mas eu não estava afim de amor. Adorava o ritmo da nossa relação, mas não queria envolver promessas de amor eterno na jogada. Tinha medo de não conseguir chegar na letra R. Tinha que ser disciplinada nas minhas conquistas. Então, eis que eu o deixei. A Helena abandonou o Páris. E o fusca. Ótimas recordações ficaram ali. Veja, estou arrepiada de lembrar, falou sorrindo e apontando para seus pelos do braço. No dia seguinte ao que resolvi terminar nossa relação, fui a um tatuador e tatuei a primeira letra. Um P. O tatuador achou meio estranho, perguntou se eu não queria nada a mais. Homens, pensei, sempre querendo nos oferecer mais do que desejamos. Olhei pra ele e disse que só o P era mais do que o suficiente. Escolhi o tipo de fonte e ele tatuou. Meu pais nem perceberam. E mesmo que percebessem, não ligariam muito. O acordo tácito era que eles não tivessem que se ver envolvidos em nenhum escândalo social. E isso não ia ocorrer. Eu era discreta. Eu fazia o que queria, mas não era como se eu quisesse que todo mundo soubesse. Paris correu ainda muito tempo atrás de mim. Soube do P na minha nuca e simplesmente enlouqueceu. Eu simplesmente disse que ele foi parte da minha história. Foi. Passado. Não seria mais. Letra repetida não formaria a palavra que eu queria. Demorou para se consolar, mas por fim foi chorar no colo da minha amiga. Ou, na verdade, fazer coisa muito melhor com o colo dela, que era enorme.

Nesse momento a pirralhinha, cujo nome descobri ser Alice, gritou pra mãe: Mais pipoca! Anna pareceu acordar de uma sonho. O sol estava se pondo, o céu laranja e havia pombos por todos os lados. Alice parecia aflita por aplacar a fome de todos eles. Anna virou pra mim e disse que sentia muito, mas teria de partir. Já era tarde. Alice precisava ir pra casa. Muito me entristeci por não ver o fim de tal história, que ao meu ver, estava apenas no começo. Ela naturalmente notou meu desapontamento: – Oras, nunca soube que minha história era tão interessante. Estarei aqui amanhã nesse mesmo horário, com minha filha, Alice. Talvez possamos nos encontrar e eu possa lhe contar o restante da minha história. Ou uma boa parte dela – disse, sorrindo, aparentemente muito surpresa por eu ter ficado tão intimamente interessada na sua vida. A verdade é que estamos sempre interessados na vida. Vida é vida. Estranho é se interessar pela morte. Da morte todos queremos distância. Assenti alegremente para ela e concordei, dizendo que estaria no mesmo banco amanhã, esperando apenas ter a leitura atrapalhada pela sua adóravel garotinha. Ela sorriu e se despediu, enquanto chamava Alice para ir embora, pegando sua mãozinha delicada e guiando-a, ignorando suas admoestações  sobre ainda ser cedo e sobre os pombos ainda estarem com fome e quererem mais pipoca. Eu sorri com aquela cena e previ que eu veria aquela cena ainda algumas vezes. E fiquei feliz com isso.

PS: Para quem ficou na dúvida, eu não vivi essa história. Pensei que leriam as categorias, mas realmente me lembrei que poucas pessoas prestam atenção em quais categorias determinado post está arquivado. Então, é um conto.  Similaridades com a realidade são só coincidência.

Prazer & Amor. Ou a história de uma tatuagem/vida, parte I.

Como eu a conheci ainda é um mistério para mim mesma. Acho que estávamos ambas sentadas num mesmo parquinho de uma praça qualquer. É, foi isso mesmo. Uma garotinha linda, na faixa dos dois anos, cabelos loiros cacheados e olhos verdes, brincava com os pombos, jogando a pipoca que a sua aparentemente irmã tinha comprado para o consumo dela, a menininha. Bem, se isso a fazia sentir-se melhor, os pombos realmente pareciam interessados na pipoca – pelo menos bem mais do que a menina –  e quanto mais pombos apareciam, mais a menininha ficava feliz. Eu estava bastante compenetrada na minha leitura antes de tal criaturinha chegar, mas aquela risada totalmente contagiante e aqueles fios de ouros iluminando o parque com sua corrida feliz simplesmente me desconcentraram. Passei um bom tempo embasbacada com a quantidade enorme de vida inclusa naquele pequeno ser. Como aprendíamos depois a ser tão… apagados? Na verdade, nem lembro se eu era algo tão irradiante. Algo tão ligado em 220. Comecei a sorrir sozinha e olhei pra mulher sentada do meu lado, que parecia estar naquele tipo de estupor no qual eu estava entrando desde que chegou no parque. Ela parecia uma versão pouco mais velha da menina. Os mesmos fios loiros, apenas agora um pouco mais escuros, e os mesmos olhos verdes. E sardas pelo nariz e pela bochecha. Será que a menininha também tinha sardas? Já que não ia mais conseguir me concentrar no meu livro, já que uma louca personagem pulara de algum conto de fadas infantil e resolveu ficar pululando com os pombos a minha volta, resolvi travar uma conversação com a tal moça do meu lado.

– Ela é sua irmã? – perguntei para a moça loira. Ela sorriu para mim, embora continuasse com os olhos na  sapequinha irrecuperável, e corrigiu: – É minha filha. Deu um suspiro: – As pilhas delas nunca acabam, é impressionante! Ela tem um enorme prazer de viver! E continuou observando a filha, embevecida. Primeiro achei que ela estava admirando-a, por sua energia pulsante. Mas hoje vejo que ela apenas relembrava um tempo nem um pouco longe, no qual essa pirralhinha afoita era ela mesma. Claro que eu nunca ia imaginar isso. Ela era simplesmente jovem demais até para eu realmente imaginar que aquele serzinho elétrico era carne das suas  entranhas, que dirá pensar que ela já era velha suficiente para pensar no passado. Mas, aparentemente, era assim que se sentia. E foi o que disse depois, sem mais nem menos mais: – O amor nos envelhece, sabe? Creio que de um jeito bom, mas nos envelhece sim. Olhei para ela e perguntei se não era mais uma sabedoria adquirida, e não uma velhice em si. – Bem, ela disse, eu nunca ouvi falar em nenhum sábio novo, certo? Esse negócio de sabedoria cansa, acaba com as baterias. Não tenho mais coragem de ser assim, falou, indicando sua filha. Nessa hora percebi uma tatuagem delicada em seu pescoço, começando na parte inferior da nuca e subindo para o pescoço. Escrita em caligrafia finíssima, a tatuagem declarava: Prazer & Amor. Tentei ficar calada e não comentar, mas algo me dizia que, sim, eu não perderia nada perguntando. Nunca se perde nada perguntando. Sempre se ganha. Sejam coisas boas ou coisas ruins. É como apostar. Abrir um presente. Nunca se sabe mesmo o resultado. E decidi que perguntaria. – Ahm. Sua filosofia de vida, essa?, falei, evitando olhar nos olhos. Ela piscou os olhos como se acordasse e virou-se pra mim, sem entender: – Desculpe. O que você quis dizer com isso? Meio envergonhada e com medo que ela tivesse ficado chateada com a minha intromissão, fui tirando delicadamente o meu time de campo: – Oh, nada. Só estava perguntando sobre a tatuagem, mas não precisa responder. Grosseria a minha, também, me meter. Eu nem ao menos a conheço. Ela sorriu pra mim e vi que estava perdoada. Ela virou pra frente e continuou a observar sua filha. Ouve um grande silêncio entre nós. Não mentirei que não foi incômodo, por que foi. E eu já estava prestes a voltar pro meu livro, com concentração ou sem concentração, quando ela finalmente falou: – Anna. Foi minha vez de não entender nada: – Desculpe? – Meu nome. É Anna. – disse ela, sorrindo – Sei que não é suficiente para você dizer que me conhece mas… – É um começo, completei, feliz por ela não ter ficado chateada comigo. Um silêncio menor se seguiu, mas dessa vez não me incomodei, pois sabia o que viria a seguir. – É uma história complexa, essa. Mas não é bem minha filosofia de vida não. Não é só isso. É mais a história da minha vida. Não sei se você terá vontade ou paciência para algo assim, sabe? – ela falou, se virando para me olhar no final da afirmação, talvez para confirmar o que ela sentia. Não conseguiu. Eu continuava tão curiosa quanto antes e capacidade de ouvir histórias estranhas e complicadas é uma habilidade que eu sempre tive. Pra mim, quanto mais complicada a história, mais interessante. Historiazinhas comuns não me servem nem nunca me serviram, embora eu tenha achado difícil encontrar alguma que seja, ao seu todo, comum. Sei que dizem que dizer que todos são diferentes é apenas uma forma de dizer que todos são iguais. Mas, sinto muito em ser clichê, mas não vejo outra forma de dizer o que acredito: todos nós temos nossa partícula de inusitado – ou nosso Alpes particular. Não dá pra dizer que nenhuma história é totalmente simples. Sem graça. Ou mesmo aguada e óbvia. Por que todos temos nossos dramas particulares, que podem até ser parecidos com o da pessoa do lado,  mas nunca iguais. Temos sentimentos, razões, pensamentos que tornam tudo interessante e diferente.

Mas se há de admitir: do meu ponto de vista, sim, existem sentimentos, razões, pensamentos que são MAIS interessantes. Porém nenhum que seja totalmente chato.

Então me virei para olhá-la no fundo dos seus olhos verdes acesos e disse: Querida, já estou sentada. Pode começar sua história. E ela começou.